AGUARDE
22 maio 2015

A apoteose de Filipe Toledo e o verão sem fim

Por Triguilli Newton

Está difícil encontrar um lugar na areia. É tanta gente, que mal dá para ver o mar. A solução é fazer uma pequena duna para ficar mais alto e assistir ao espetáculo de frente. A manha é usar um chinelo para arrastar mais areia e deixar a superfície plana e quando João (‘O especialista’ surfista/publicitário pernambucano, 39 anos fissurado no circuito mundial) se dá conta, já tem um cara do lado fazendo o mesmo, com a namorada atrás, gata imóvel, só esperando a obra terminar para usufruir da vista, mesmo sem entender muito o que se passa.

Casa cheia na etapa do Rio de Janeiro

Os dois operários juntam suas construções e a mini arquiba fica pronta em menos de 5 minutos. “ Agora sim! - Diz João. O vizinho de duna aproveita para se apresentar.” Meu nome é Mário”. (‘O simpatizante’ Engenheiro gaúcho, 25 anos, torcedor de futebol ainda traumatizado com o 7X1) “Você sabe me dizer quem está ganhando?” ( Está cientificamente provado que essa é a pergunta mais feita por leigos em campeonatos de surfe)
“A bateria acabou de começar, e ninguém pegou nenhuma onda.” Respondeu João. Mal ele acaba de falar e Filipe Toledo dropa sua primeira na final da quarta etapa do CT 2015. Nada de mais, um 4,50, por três manobras de backside, sendo a última incompleta. Rapidamente Mário manda outra pérola: “ E o Medina já está na final?” João com uma expressão de espanto devolve: “ Rapaz, na real o Medina perdeu na terceira fase.”

Bela foto, mas Gabriel Medina não brilhou na Barra da Tijuca

Nisso o outro finalista, Bede Durbidge, sabendo que precisa ser o mais moderno possível para derrotar o foguete brasileiro consegue uma aéreo reverse agarrado, que lhe rende 5,07 pontos. E a falta de intimidade com o ambiente rende mais uma: “ Mas ele (Medina) não vai ter uma nova chance?” João responde com pouca paciência, mas autoridade“ Não. Essa já é final e eles só podem perder na primeira e na quarta fases, porque depois delas tem as repescagens.” Durante a fala de João, Filipinho começa a aprontar e com um rodopiada e uma série despretensiosa de rasgadas e batidas tira um 6,17.

Bede Durbidge bem que tentou...

Mário faz aquela cara de grande interrogação e solta: “ Complicado esse negócio das notas e dessas baterias, hein? To acostumado com futebol, que é bola na rede, né. Pela confissão e provavelmente, também, por conta da camisa amarela da seleção, João aproveita para brincar com o vizinho de duna. “ Mas depois dos 7X1 para a Alemanha no ano passado, essa deve ser a primeira vez que você usa essa camisa, não é não?” Quando Mário pensa em responder, Filipinho rema para uma onda da série e a torcida, pressentindo o espetáculo, urra. Logo na primeira manobra o caçula dos top 34, manda um aéreo gigantesco, de rotação completa e fecha a onda com mais três batidas. Resultado: 10 unânime e torcida em erupção. A gritaria e o reboliço assustam a namorada de Mário, e para piorar a situação, uns torcedores eufóricos e bêbados, na duna de trás, jogam cerveja pelos ares.

Surfe acrobático

Por conta disso, a gata (Fabiana, modelo catarinense, que viajou com o namorado para o Rio, pela promessa de visitar os pontos turísticos e badalar na noite) se manifesta pela primeira vez desde o inicio da bateria: “ Meu amor, não tá dando para ficar aqui não. Além de eu não estar entendendo nada, esses guris aqui de trás estão fora de controle e espirraram cerveja em mim.”
Empolgado com o clima de estádio de futebol, mas preocupado com a namorada, Mário tenta remediar o problema.” Meu amor, acho que o negócio é você ir dar uma volta na rua aqui atrás para procurar alguma coisa para comer, que daqui a pouco eu te encontro.” Durante a conversa do casal, Filipinho e Bede Durbidge surfam algumas ondas e a situação não muda. O moleque continua longe na frente, com o aussie tentando se livrar da humilhação.

A arquibancada de verdade lotou cedo

João que não desgruda os olhos do mar, mas ouve a conversa do casal, tenta ajudar.” Se você gosta de comida natural, tem um restaurante orgânico bem legal, logo na primeira quadra saindo aqui da praia, que vale a pena. A dona tem até um programa de receitas no Woohoo.” “ Woohoo?? O que é isso?” Pergunta Mário. No que João responde mais uma vez com autoridade. “ Fala sério rapaz, você não conhece o Woohoo. É uma canal de TV a cabo, que fala de surfe, skate, música, artes. Eles são pioneiros no surfe na TV e tem os melhores especialistas no assunto.”
Mário devolve.“Ah. Tri legal. Vou dar uma olhada para ver se eu aprendo alguma coisa, pois eu fico perdido com tanta informação. Só sei que eu estou gostando disso. Comecei a me ligar no fim do ano passado, quando o Medina foi campeão, mas agora to querendo até comprar uma prancha.” Enquanto João assiste mais uma onda espetacular de Filipinho ( um 9,87 por dois aéreos reverse, um na primeira sessão e outro na beira, nota que fecha a fatura do brasileiro com o maior somatório da temporada: 19,87 pontos e garante seu segundo título em quatro campeonatos disputados em 2015) e a torcida explode de alegria, ele pensa na consequência dessa popularização recente do surfe.

Arquibancada de areia

Mais gente dentro d’água, mais empresas tentando pegar carona no lifestyle do esporte, ou seja, problemas à vista. Fazer o que, essa magia é contagiante mesmo. Pensou ele e seus botões. A essa altura a euforia da galera não tem mais freio e a multidão unida grita a pelos pulmões: “ É campeão!!! É campeão!!!” Antes de se despedir do vizinho de duna para assistir a premiação, pensando nos cinco últimos pódios da elite da WSL desde de Pipeline em 2014, todos com brasileiros e três deles com um dos nossos no topo, João novamente conversa com os botões. Essa história de tempestade brasileira era só o começo. Agora é verão sem fim.

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