AGUARDE
29 setembro 2016

A Vida Louca da MPB

Mais que um livro, um retrato de várias gerações que misturaram talento com insanidade para deixar seus nomes registrados para sempre na história da música brasileira.

 

 

Ismael Caneppele nos conta 17 histórias de artistas que ao entregarem seus talentos para a degustação da audiência, também brindaram o mundo da MPB com trajetórias marcada pelos excessos. Álcool, anfetaminas, drogas sintéticas e todo tipo de entorpecentes são co-protagonistas do livro “A Vida Louca da MPB”. É importante ressaltar que o autor generalizou no título a música cantada em português e não o estilo musical em si. Por isso, temos inserido dentro das 270 páginas um panorama que vai do nascimento do samba, representado por Noel Rosa e Nelson Cavaquinho, passa pela sedimentação da música brasileira, simbolizado por Carmen Miranda, Orlando Silva, Dalva de Oliveira e Mário Reis, sem deixar de lado o micróbio do Rock Brasil, personificado por Júlio Barroso, e sua direta consequência, perfeitamente traduzido por Renato Russo, Cazuza e Cássia Eller. Completam o time o mais maluco que beleza Raul Seixas, o poeta camarada até a última gota Vinícius de Moraes, Maysa e seus olhos de oceanos não pacíficos, o síndico mais fora da casinha de todos os tempos Tim Maia, o rei do suingue dedo duro Wilson Simonal e os marginais geniais Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio.   

Carmen e seus icônicos balangandãs

Carmen e seus indefectíveis balangandãns

Ao ler os relatos de figuras tão talentosas e a frente de seu tempo, mas com tanta fragilidade emocional, surge uma questão: seria a genialidade incompatível com a realidade ? Porque tantas pessoas com propostas e performances brilhantes não tinham dentro de si a possibilidade de administrar o excesso ? Enfim, o livro não trata de nenhuma dessas questões, mas relata com riqueza de detalhes todos os cantos escuros das brilhantes mentes que produziram obras irretocáveis, que ainda hoje são reverenciadas e reverberadas, pelo mundo inclusive.  

Noel "punk rock" Rosa

Noel "punk rock" Rosa

Temos contato com o total despreparo de Carmen Miranda para lidar com sua vida pessoal, enquanto Hollywood se rende aos seus famosos balangandãs (o que será isso?). Já Noel Rosa tinha a genialidade totalmente impregnada no seu DNA, mas seu poder de autodestruição também se mantinha na mesma proporção. Ele é citado no livro como protopunk, termo utilizado para designar artistas que foram precursores do punk no final dos anos 1960. Essa alcunha já dá uma boa noção do grau de loucura do garoto que virou a mais perfeita tradução de Vila Isabel. Outro “genial louco de pedra”, Júlio Barroso, montou uma banda, onde compunha sem saber tocar nenhum instrumento, conseguiu emplacar um hit no horário nobre da TV, porém foi sugado pela própria genialidade. As passagens que ilustram a trajetória de Julio são surpreendentes e assustadoras. Inclusive é aterrorizante em vários momentos da leitura perceber como pessoas tão relevantes podem adquirir comportamentos que se assemelham a trens descarrilados. Mas como felizmente o julgamento passa ao largo da proposta do livro, fica a sugestão pra quem gosta de música de todos os tipos e personagens bem ricos, tanto dramaturgicamente, quanto fora dos holofotes.

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