AGUARDE
07 novembro 2016

A vida e obra de Rita Lee contada por ela mesma.

Rita Lee: uma autobiografia é um verdadeiro corte na carne sem anestesia, sem vaidade, com humor e muita história boa.

Como não tenho a obrigação de tratar os fatos jornalisticamente, vou utilizar minha memória afetiva pra resenhar o livro de Rita Lee, intitulado: uma autobiografia. Voltemos para 1979, esse redator que vos tecla estava no alto e seus seis anos de idade, encasquetou com o disco de uma certa moça, que na capa apresentava uma incrível tatuagem com seu nome estampado nas costas. Criança tem tempo livre e então eu ouvia o disco pelo menos 300 vezes por dia e claro, berrava a plenos pulmões todas as 8 canções do álbum que não tinha nome, mas que todo mundo intitula “Mania de Você”. Começa desse jeito minha história com Dona Lee Jones que se mantém até os dias de hoje.

O tal disco com a moça tatuada na capa

 

Ter lido seu recente livro foi no mínimo acachapante, muito pelo fato de ser seu fã, mas também pela forma direta e sem nenhum pudor com que ela conta detalhes muito íntimos de sua trajetória e também de sua vida. A sensação que se tem, também por conta da escrita em primeira pessoa e totalmente coloquial, é que a gente tá batendo um papo tête à tête com uma amiga muito próxima. Pra quem, como eu, já tem escaneado todo o repertório de 50 anos de trajetória musical da “Ovelha Negra”, essa impressão é multiplicada por mil. Estão lá o relacionamento com a família, pilar absoluto de todas as fases tranquilas e heavy da sua vida, o primeiro envolvimento com a música, a primeira banda, a formação/dissolução dos Mutantes e nessa parte faço um adendo totalmente pessoal. Eu sempre achei a fase mais solar da discografia de Rita Lee muito mais relevante pra mim, do que os três super incensados discos dos Mutantes. Eu tive contato com eles bem depois de ser abduzido pela fase áurea pop do casal Lee/Carvalho. Eu não encontrava tanto oxigênio e deslumbramento que eu lia em jornais e em comentários de pessoas ditas “de relevância”. Ao ler o que a própria Rita considera sobre o material produzido por ela e os irmãos Batista, não me senti mais só. Valeu Rita !!!

O trio mais adorado de dez entre dez da intelligenzia musical

 

Aliás, suas análises sobre o vasto acervo musical acumulado ao longo dos anos são muito criteriosas, e pra quem o tem em lugar muito especial da memória, é por vezes injusto. Há uma grande cobrança dela com sua obra, que pra gente que comprou os discos, decorou toda as músicas e acompanhou essa história por tanto tempo, não consegue concordar. O livro também disseca todos os envolvimentos etílicos, psicotrópicos e alucinógenos da Rainha do Rock Brasil, que não se faz de vítima, não se justifica, o que torna o relato muito mais relevante e interessante de acompanhar. E como não podia deixar de ser, sua relação totalmente passional com os animais, incluindo cobras, jaguatiricas, cães, gatos eu que mais aparecesse pela frente. E sua patrulha pioneira e totalmente engajada contra os maus tratos dos bichos em rodeios e vaquejadas, Rita é vanguarda até nisso.

A cadela de Rita é personagem importante da sua biografia

 

Estão lá também o nascimento de seus três filhos, o encontro com sua cara metade Roberto de Carvalho, as internações para desintoxicar, os desafetos, os amigos, enfim, um completo raio X da alma da artista, da pessoa, do alter ego, de todas as facetas. Mais do que expor sem dó nem piedade tudo que aconteceu em 50 anos de carreira e 68 de vida, Miss Lee é uma das maiores cantoras/compositoras/artistas/gente boa/pessoa incrível que já habitou esse sistema solar nos últimos tempos. Não tem como não amar.

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