AGUARDE
11 maio 2014

A ZoSea chegou chegando?

Vários profissionais do tour falam o que mudou e o continua na mesma

Ainda a ZoSea, empresa que agora detém e gere a ASP, não tinha arregaçado as mangas, já a sua chegada prometia vir recheada de polêmica. Só no início desse ano é que os caras começaram implementando mudanças no terreno e, até agora, o momento mais crítico dessa nova temporada do surfe profissional, pelo menos em termos públicos, foi a confusão que se instalou, durante a primeira etapa na Gold Coast (Austrália), em volta dos direitos autorais de imagens e vídeos.

Na altura, qualquer um que trabalhasse com audiovisual ou fotografia e se credenciasse para o campeonato teria de assinar um documento onde autorizava a ASP a ficar com os direitos sobre todo o material produzido durante o evento. Peter “Joli” Wilson, talvez o fotógrafo que há mais tempo faz a cobertura do tour, marcando a sua presença em quase todos os eventos, reagiu de imediato, denunciando a situação abusiva e alegando que os fotógrafos iriam passar a trabalhar de graça para a organização. Garantiu ainda que, assim sendo, não iria se credenciar, mas sim trabalhar direto na praia. A fúria do australiano se tornou- viral, levando a ASP a alterar as regras. Como punição, pela sua indignação em entrevista ao site Swellnet, Joli, que vem acompanhando o surfe profissional desde o final da década de 60, encontra-se proibido trabalhar nos eventos.

“Inicialmente aquilo que a ZoSea fez foi ridículo e irrealista... Ah, ‘a gente agora é dono de todas as suas imagens’, e penso que muitos fotógrafos tomaram um susto e ficaram chocados. O Peter teve uma reação pública muito exagerada e foi muito duro nos seus comentários sem antes ter falado com os caras. Acabou se queimando. Gosto muito dele, ele trabalha com isso há muito tempo e deveria estar fazendo parte dessa mudança, mas penso que ele ultrapassou os limites”, nos conta aqui no Rio Steve Sherman, um dos fotógrafos que mais perto consegue chegar dos surfistas. “Sei que a ASP falou pra ele não vir mais nos eventos, talvez o deixem voltar, mas por enquanto eles estão de relações cortadas”, acrescenta, sublinhando no entanto que “ele merece todo o respeito” e admira o trabalho dele.

Já o fotógrafo brasileiro Sebastian Rojas fala que, para quem está fazendo uma cobertura bem abrangente, esse ano o acesso está muito mais difícil. “Se eu não estivesse trabalhando com a Billabong, o que me dá direito a essa pulseirinha preta, nem chegaria perto dos caras. E mesmo com essa credencial eu chego lá e não posso ficar mais de cinco, dez minutos fotografando bastidores. Te pedem logo pra você sair, pra deixar que o surfista tenha o espaço dele e pra não ficar apontado muito a câmara”, explica entre na zona que separa a media da área de competidores, aqui na Barra da Tijuca. “A gente tem de respeitar mas está ficando cada vez mais difícil de produzir esse tipo de foto que faz parte da cobertura jornalística e que são os bastidores, retratos, momentos em que o surfista está se concentrando, interagindo com os outros ou feliz por ter vencido uma bateria... Ou seja captar um pouco esse astral, essa vibração. Por isso é como eu falei, se eu não estivesse trabalhando para a Billabong, não teria nenhuma foto desse tipo. Mas é a política deles, a gente tem que seguir e respeitar e acredito que a principal razão para eles estarem fazendo isso é o bem-estar do surfista. Acho que eles têm direito à privacidade deles, afinal eles é que dão o show pra gente!”

Quanto à polémica levantada por Peter, Rojas acha que “eles (ZoSea) fizeram uma coisa muito radical e tiveram de voltar atrás”. “Eles não têm esse direito, isso é contra a lei, acho que em qualquer lugar do mundo... Se não quiserem não deixar ninguém estar dentro da área deles, tudo bem, então não deixa, mas como é que eles vão controlar a praia? Como é que eles vão controlar esse povo gigantesco, principalmente aqui no Brasil? Acho que eles foram sensatos em voltar atrás, em serem mais flexíveis, e acho que o protesto que o Peter ‘Joli’ Wilson fez na altura fez todo o sentido.” Na opinião de Sebastian, o australiano se queimou, falando em nome de todos os profissionais que trabalham há tantos anos com o surfe. Considera que ele foi “injustiçado” e que “a coisa foi mal entendida também”, em parte porque ele fez “um protesto pesado por ter uma relação antiga com a ASP”. “Eu concordo com ele, se eu estivesse na pele dele também iria ficar indignado. Agora a gente pode continuar fazendo como sempre foi, fazendo o nosso trabalho, continuando com os direitos sobre as nossas imagens e comercializando elas para quem quer que seja.”

Sabe aquela garota bonita e loira que entrevista os surfistas para o webcast logo após as baterias? O nome dela é Rosie Hodge e para ela a tomada de posse da ZoSea foi a melhor coisa que podia ter acontecido. “É uma oportunidade enorme em termos profissionais. Sinto-me especial porque sou a única mulher na equipe de comentaristas, que viaja para fazer a cobertura de todos esses eventos. Eles estão sempre me ensinado para que eu vá melhorando dia após dia. É o primeiro ano, vou sempre ter ‘dores de crescimento’, mas acho que tudo está se encaixando cada vez mais. Por isso, na minha opinião, penso que ao longo do ano nos vamos tornar cada vez melhores”, nos conta na correria entre uma bateria e a outra. No que diz respeito à grana, porque nesse departamento também tem havido mudanças, a gente lhe pergunta se foi aumentada. A sul-africana é evasiva e apenas responde: “Para mim, eu sou patrocinada pela Roxy, logo tudo o que a ASP me der é como um bônus. Penso que as coisas estão ficando cada vez mais estruturadas e cada vez melhores por sermos sempre os mesmos trabalhando em todos os eventos.”

Por sua vez, o juiz basco Mikel Zalakain, e como bom basco que é (ficou puto, quando no meio da entrevista a gente se referiu a ele como espanhol), não poderia ter sido ser mais franco na questão do dinheiro. “Então, melhorou um pouquinho, mas essa será sempre uma luta eterna... Nós vamos querer sempre que seja um pouco mais. Mas pô, comparando com outros esportes profissionais de alto nível, seja futebol, basquete, deveríamos ser ainda mais aumentados. Nessa perspectiva aquilo que a gente ganha é ridículo. Por outro lado, se você fizer a comparação para baixo, você se sente um privilegiado e, nesse sentido, creio que é um bom salário.”

Quanto aos critérios de julgamento, e depois de Kelly Slater ter dito, no fim do ano passado, em entrevista à jornalista que assina essa matéria, que achava que os critérios de julgamento “deveriam evoluir, mas talvez para qualquer coisa nova e diferente ou até mesmo critérios específicos para locais diferentes, diferentes tipos de ondas e condições para o surf”, Zalakain explica que as coisas estão na mesma. “Os critérios de julgamento continuam iguais e nunca nos disseram que teríamos de fazer qualquer alteração”, fala o basco de 36 anos, frisando ainda que concorda absolutamente com as novas regras para o sistema de prioridade. Confrontado com as declarações do “Careca”, o único juiz basco e um dos dois europeus a trabalhar no WCT, defende que os surfistas são os protagonistas, e portanto se eles acham que os critérios deveriam ser mudados, eles têm de, pelo menos, falar com eles e chegar a um acordo. “Estou na disposição de o fazer, a tentar entende-los e ir pelo caminho que eles querem ir.” Quanto a mais mudanças, Mikel aponta melhorias nas infraestruturas que agora estão “incríveis”, “um replay muito bom com inúmeros ângulos, tanto de terra como de dentro de água”, embora para eles, juízes, seja sempre preferível ver o surfe de frente.

E com as condições que têm estado aqui na Barra o surfe fica mais complicado de avaliar? “O julgamento é algo difícil, principalmente no surfe que é um esporte um pouco subjetivo, e não como o futebol. Tem aspectos que temos de interpretar, muitas vezes as condições variam, fazendo com que por vezes a gente tenha de dar mais enfâse a certos aspectos do critério que outros. Particularmente, eu não me fixo muito nas condições, tento analisar o surfe, sem ligar muito para o fato de as ondas estarem boas ou más.”

Depois de entrar em contato com os mais diversos profissionais pra fazer essa matéria, esse texto não faria sentindo sem a opinião de um surfista do circuito. A gente deu de cara com Matt Wilkinson, que não se inibiria nunca de falar mal do que quer que fosse, e logo pediu a sua colaboração. “Yeah, sure!”, disse o gringo com as roupas mais engraçadas do tour. “Deviam nos pegar de limusine no aeroporto! Não, estou zoando, não sei, talvez eu consiga te responder essa pergunta no final desse ano”, afirmou o australiano que, antes de a gente ter começado a gravar essa entrevista, nos falava em simples mas importantes mudanças.

Você falou em pequenos detalhes. Será que me pode dar alguns exemplos, visto que a gente não tem como entrar lá na área dos surfistas? “Sim, a comida, a disposição e dimensão da zona de competidores, tem sempre alguém lá para nos dar apoio caso a gente tenha uma dúvida ou esteja precisando de alguma coisa, e eles tratam de tudo.” Matt considera que “se está tornando bem claro para todos que o esporte está evoluindo na direção certa” e confessa estar curioso para ver que mais mudanças vão surgir. “Esse é o primeiro ano deles e tenho a certeza de que esses caras vão aprender muito ao longo dessa temporada e o próximo ano será ainda melhor.”

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