AGUARDE
30 junho 2014

As muitas vidas de Neco

Do céu ao inferno

Foi nessa época que comecei a ter acesso à minha loucura, sabe? Estamos em 1997. Padaratz, com apenas 20 anos e em 3.º lugar do circuito mundial de qualificação, se lesiona no tornozelo após a perna australiana. Fiquei sem surfar tanto tempo que enlouqueci, não deixava nenhum amigo entrar na minha casa. Fiquei a pessoa mais estranha que você possa imaginar. Ninguém tinha acesso a mim, nada vinha de fora para dentro. Quase sem poder caminhar, entrou em depressão, escreveu poesia bizarra na parede e se convenceu de que nunca mais seria atleta. Apesar dos muitos amigos, o jovem caçula cedo se habituou a estar no mundo sozinho. Meus pais se separaram quando ainda era criança, depois a minha mãe saiu de casa e foi morar em outro lugar. Aos 16 perdeu um dos irmãos mais velhos (Peninha, irmão por afinidade) e os outros dois (biológicos) se casaram durante a sua adolescência. Perdi alma, o chão, a vontade de viver, fala, recordando esse momento trágico. Passei dois anos muito revoltado, depois fui para a Austrália um ano, em seguida outro para a Califórnia e, quando voltei, entrei em casa falando com o meu irmão. Senti que ele ainda estava ali. Só escutava som punk, minha vida era foder com tudo. Fiquei sem surfar tanto tempo que enlouqueci, não deixava nenhum amigo entrar na minha casa. Fiquei a pessoa mais estranha que você possa imaginar. Ninguém tinha acesso a mim, nada vinha de fora para dentro Após quatro meses trancado em casa por causa do tornozelo machucado, problemas com patrocinadores e atrasos nos salários, Neco, recuperado, volta ao circuito mundial de qualificação com uma difícil tarefa – conseguir oito resultados excelentes nas nove últimas etapas do ano. E assim foi. Venceu dois eventos que hoje seriam equivalentes aos prime (provas mais pontuadas), garantindo a sua vaga na elite mundial. Em 1998, o seu ano de estreia, acabou a temporada em 13.ª posição da tabela, mas, temperamental, pulou fora no ano seguinte. Era 5.º do ranking mas joguei tudo para o alto. Peguei num copo de milkshake e McDonald’s e falei ‘Obrigada circuito mundial, mas tchau’. Estavam chamando a minha bateria e, naquele momento, falei ‘Cara, eu quero ver outra coisa na minha vida’. A razão? Se cansou do trabalho individualista, da vida biomecânica, das contas do ranking e de existir só nesses termos. Vi que tudo isso era um rolo, a gente vivia no meio, era obrigado a seguir o ritmo e não dava para olhar para o lado. É como se as pessoas não existissem, a única coisa que existe é o lugar onde eu vou chegar, a prancha que eu vou usar, a onda que eu vou ter e a menina com quem eu vou ficar. Romântico assumido, o surfista de 37 anos nos conta que sempre teve uma ligação muito forte à Europa e novamente nos surpreende. Eu tenho mediunidades, sabe? Acredita que numa vida passada viveu no Velho Mundo e tem sempre vontade de regressar por uma razão que ainda não descobriu. Além disso, muitos dos resultados expressivos e importantes da sua carreira aconteceram lá. E o contrário também. Hossegor (França), Verão de 2004. A famosa vila no Sudoeste do país está lotada, tem um monte de garotas lindas fazendo topless na praia e, durante a etapa – onde dois anos antes tinha derrotado Andy Irons na final –, Neco, no auge da sua carreira, é chamado para fazer testes antidoping. Perguntaram que medicamentos estava tomando e logo aí achou a interrogação estranha, uma vez que não a fizeram aos outros três escolhidos pela ASP. Tinha a consciência limpa e respondeu que estava usando suplementos para tratar as dores de uma hérnia discal. Nunca na minha vida tomei esteróide para estar no circuito. O meu problema na coluna era horrível e eu, competindo, não tinha tempo para fazer uma cirurgia ou um tratamento de fisioterapia longo e intensivo. Por isso o meu médico falou que o único jeito de eu continuar era aumentando a minha musculatura. Assim foi. Bem à Neco, e numa época em que as pessoas não ficavam lendo os rótulos, entrou numa loja e falou: ‘Cara, eu preciso de alguma coisa para os meus músculos.’ Ele me deu três, quatro suplementos e um deles, que era em cápsulas, tinha um componente que era proibido. A minha condição foi melhorando, porque eu fui mantendo o meu ritmo de treino, meu metabolismo mudou e o meu corpo alterou-se por completo. Aos olhos de quem via de fora, acharam ‘Pô, o cara tá se bombando, tá tomando esteróide’. Nunca na minha vida tomei esteróide para estar no circuito. O meu problema na coluna era horrível e eu, competindo, não tinha tempo para fazer uma cirurgia ou um tratamento de fisioterapia longo e intensivo. Por isso o meu médico falou que o único jeito de eu continuar era aumentando a minha musculatura O resultado do exame feito na praia por um médico alegadamente trazido pelo Comitê Olímpico, mas que, segundo Padaratz, não passava de um impostor, veio passado um ano e várias reuniões de bastidores. Dava positivo para esteróides anabolizantes. Embora nunca se tenha tocado publicamente no assunto, os outros três surfistas também foram apanhados, mas Neco era ideal para servir de exemplo. A punição? Doze meses sem competir. Porém, dada a demora do laboratório francês em entregar o teste e com a temporada de 2005 já no meio, a suspensão, na prática, foi de apenas cinco. Para o público, Neco virava um aldrabão, bem pior que drogado. Hoje, passados dez anos, o surfista rebelde de Santa Catarina acha que tudo não passou de uma armação para o travar. Tenho a certeza de que isso tudo foi feito. Um dia saberão a verdade, não hoje, responde, quando insistimos com ele para aprofundar mais a história. Existe um responsável por isso tudo e essa pessoa era o presidente da ASP [Wayne ‘Rabbit’ Bartholomew]. Hoje não está mais lá, foi derrubado pelo sistema. Ao longo da nossa conversa ele recorre várias vezes às palavras escada e ladeira para falar da vida. Ninguém melhor que Neco para nos ensinar como é viver aos trambolhões. Com Irons, que morreu em 2010, descobriu cedo que não ia dar para ficarem os dois, à cotovelada, no mesmo degrau. Em juniores, ambos surfavam com a mesma raiva, paixão e sede de vencer, revendo-se um no outro. E, nas palavras de Júlio Adler, fizeram automaticamente um pacto – ganhar a porra toda da ASP. Lutaram como guerreiros e festejaram como irmãos. Andy foi para o céu e Neco para o inferno, afastado e perseguido como um intocável. Padaratz acha que talvez lhe pudesse ter salvo a vida se ainda estivesse no circuito. Dinheiro? Ficou tudo nos roupões que deixei suados nos hotéis e nas rugas. Usei ele direitinho. Agora eu não ganho dinheiro, eu corro atrás dele Conta que ainda há tempos estava chorando em casa, por dificuldades financeiras, sem saber o que fazer da vida e que nunca se tinha sentido tão humilhado e menosprezado. Diz estar transformando o sofrimento em aprendizado e acredita que a melhor fase ainda está por vir. Foi um dos primeiros surfistas brasileiros a ganhar dinheiro de verdade; perguntamos-lhe o que fez com ele. Dinheiro? Ficou tudo nos roupões que deixei suados nos hotéis e nas rugas. Usei ele direitinho, conta com um sorriso que, de imediato, nos faz imaginar o que seria Neco nos seus tempos áureos. E agora? Chegou no ponto. Eu não ganho mais dinheiro, eu corro atrás dele. Em um ano, Neco vive mais vidas do que a maioria de nós em toda a vida. Tanto se fala em alma, surfista de alma, Neco é surfista de coração. Tirem o surfe dele e não sobra mais nada. Tudo em Neco são sentimentos verdadeiros, embora nem sempre saiba traduzi-los. Ninguém carregou tanto peso nas costas, ninguém fez tanto, ninguém sofreu tanto e ninguém foi tão indispensável para o surfe brasileiro como Neco nesses 18 anos. Os seus filhos, Niccolas e Zion, não vão precisar de super-heróis, escreveu Adler em 2012 para a revista Hardcore. Nós assinamos em baixo.

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