AGUARDE
14 junho 2016

Black Alien: Mais sereno e mais maduro

11 anos depois do lançamento de seu primeiro disco e de uma incrível história de superação, nasce o segundo álbum do rapper Gustavo de Almeida Ribeiro: "Babylon By GUS Vol 2: No princípio era o Verbo”.

Em entrevista ao Woohoo, Gustavo Black Alien não economizou palavras ao contar sobre seu passado dramático, quando se viu completamente dominado pelo álcool e pelas drogas e impossibilitado de fazer o que mais ama: Se expressar. Gus falou como saiu fundo do poço e do lançamento de seu segundo álbum de trabalho: "Vol II - No princípio era o Verbo”.

Recentemente, Black Alien foi o nosso convidado ilustre no "Papo Reto".

A Queda

"Esse novo trabalho (Babylon By GUS Vol 2: No princípio era o Verbo) foi uma das causas do começo do processo da busca pela serenidade, da busca pela minha sobrevivência, no caso, pela minha vida.

Teve um momento em que eu perdi minhas ambições, minhas alegrias de viver, vontade de escrever. Não tinha vontade de andar de skate, não tinha vontade nem de dar um mergulho, cara. Eu tava bem desbotado mesmo, bem triste. Isso começou com o assassinado do Speed em 2010. Eu já não tava muito bem e ai veio esse golpe do nada, tipo uma marretada, mesmo. E ai eu fui só ladeira abaixo."
 

Speed Freaks e Black Alien

Álcool e Drogas

"Eu tinha alcoolismo e dependência química, nessa ordem. O álcool é o gatilho. Depois dessas idas e vindas, o que me assustou foi que eu não estava conseguindo escrever, eu não estava tendo concentração. E por que eu não estava conseguindo escrever? Pra você escrever você tem que ouvir e ler. Eu não tava lendo. Depois que eu lancei meu disco, acho que o último livro que eu li foi em 2015. Depois fui voltar a ler só em 2012, então foram 7 anos sem ler."

Sem vocabulário e sem informação, sem nada, eu vivia no meu mundo.

 
"Eu era como se fosse um balão inflado de ego, o ego inflado e o balão sobrevoando as coisas de cima, sem participar de nada. Eu achava que estava vendo tudo mas não estava vendo nada e, na verdade, ta todo mundo te vendo. Você está no centro de um circo que voce não construiu. E ai eu não quis mais ser esse palhaço, não, entendeu?"

Limpo, reabilitado e sem o álcool que o atormentava há tempos.

Início do caminho de superação

"E como me assustou uma coisa que era natural minha, que era escrever, me expressar, eu falei, bom, eu vou seguir uma estratégia. Aí eu pensei no crowdfunding. Porque se eu firmasse um compromisso com meu povo, já seria mais um empurrão, uma coisa que eu teria que cumprir. Uma disciplina forçada. Foi muito difícil mesmo. Mas ai cara, assim eu fui indo, fui acreditando em mim."

Em 2013, ele criou o projeto de crowdfunding para concretizar o lançamento do álbum

No princípio era o verbo

"Me impressiona muito esse livro de João, que é joão 1.1. "O verbo estava com Deus e o verbo era Deus". Eu não conhecia o livro de João e eu estava sempre lendo a bíblia nos momentos mais desesperados, nos mais dificeis, e ai eu passei a ler a Bíblia fora desses momentos também. Porque é um livro maneiro de ler, sabe? Tem muita coisa boa ali. Adoro os provérbios de Salomão, Salmos de Davi. Eu sempre uso em alguns momentos.

Bom, no principio, que além de ser principio de início, são meus princípios, meus valores também. No princípio era o verbo. Tudo isso, show pra 5 mil pessoas, shows grandes que passaram a ser o ganha pão dos envolvidos, toda aquela galera trabalhando...o que causou aquilo tudo ali? Foi o verbo. Foi o Gustavo começar a escrever e pôr no caderno."

"Acho que “Terra”, que foi a primeira música que eu lancei nessa época, é uma das melhores letras que eu já escrevi. Inclusive, eu acho que me superei no flow, porque era um flow bem dificil de fazer, era muito rápido, muitas palavras por segundo. Falei um pouco de amor, falei um pouco de skate.
A “intro” foi uma poesia que comecei a escrever em casa do nada. E aí já me lembraram e falaram assim: “Po essa ai é a versão 1967 do Marcelo?” Eu achei legal e falei : Pode ser. Porque não?"

O rapper de 43 anos não esconde a atual leveza de ser.

"Depois vem “Rolo compressor”, inspirada em "Snatch", aquele filme do Guy Ritchie, "Porcos e Diamantes". E me inspirei também numa situação que rolou uma vez comigo. Eu tive que cobrar um dinheiro num show e ai fui com uns amigos e ai a gente foi "daquele jeito". Eu precisava do dinheiro e o cara não queria me pegar. Mas ai nós fomos no sapato, na educação, pra ver qual seria a resposta, dependendo da resposta, o tempo ia fechar. E ai botei um pé de cabra por dentro da calça e fui lá mancando. Ai eu lembrei desses episódios ai e escrevi a música."
 

“Rock n’ roll” foi simplesmente um recado. Porque chega aos meus ouvidos coisas do tipo “Ah fulaninho disse que você ja era, que agora e a época dele, que você já é muito old school e que não é mais relevante". Eu fiquei na minha. É gente que aperta a minha mão, que dá tapinha nas costas, que tira até foto. E ai eu escrevi esse recado:
 
Ah, de novo não
Jovem não dificulta
Folgado assim não chega nem na idade adulta
Prove do seu próprio veneno
Filho da puta que você destila
Iguais a tu, deixo vários no sereno
Entra na fila, vai vendo
Eu passo reto é mais um gol
No embalo imaginário do bebê de Bebeto, and here I go
Estilo copa de 94, eu tinha 22
Underground, conhaque e erva
De dia feijão com arroz
No primeiro round, eu checava o mic
E vai que vai, um, dois, um, dois, e é mais um que cai
E hoje são mais
Vinte anos e avante, não atrapalha
E eu me mantenho relevante
Entre uma pá de rima palha
Então, irmão, não me atravessa porque eu não deixo
Meu verso é box no queixo
Vem me atacar na vida pessoal
Sai do eixo e passa mal
Quer saber de mim, abre o jornal, abre o portal
 

Hoje, Gustavo é só sorriso e energias positivas, ele quer olhar pra frente.
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