AGUARDE
29 abril 2014

Comprando biografias musicais

Confira o nosso mini guia com dicas para não cair em armadilhas editoriais e investir em uma boa biblioteca musical

Ninguém sabe escrever sobre si mesmo. A não ser em raríssimos casos, é impossível que um artista consiga ter o discernimento e a falta de amor próprio suficiente para falar a (total) verdade sobre si mesmo. É exatamente por isso que músicos que escrevem suas autobiografias (ou que contratam ghost writers para isso) costumam dizer em seus textos exatamente o oposto do que acham que estão afirmando. Querendo afirmar sua legitimidade e importância, esses artistas costumam deixar transparecer ataques de falsa modéstia, pretensão pura e simples e até mesmo falta de inteligência. Normalmente o que fica de fora é muito mais significativo e interessante do que qualquer linha do livro. Algumas exceções são artistas tão únicos e imprevisíveis que de fato vale a pena entender, sem mediação, o que se passa na cabeça de cada um. Um caso notório é a autobiografia de Miles Davis, um gênio conhecido por seu comportamento violento, taciturno, sua mania de tratar mal outros músicos e seu vício em quase todas as drogas que estavam a seu alcance. No livro, entretanto, Miles não nega nada - e o estilo no qual a história é contada é quase tão vívida quanto a música do artista. Outro caso é o músico Gil Scott-Heron, que escreveu uma autobiografia tão cândida e sincera que o resultado é doloroso, principalmente porque o músico e escritor morreu poucos meses antes do lançamento oficial. No livro, Heron chega a afirmar que suas mulheres teriam sido muito mais felizes se não o tivessem conhecido - um rompante de honestidade tão emocionante quanto os discursos do músico na época de The Revolution Will Not Be Televised.

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