AGUARDE
29 maio 2014

David Carson

Tudo por um estilo grunge

Considerado o mais revolucionário designer dos anos 90, David Carson diz que intuição está acima de qualquer programa informático ou doutoramento na área. “Nunca estudei Design na faculdade e portanto nunca aprendi as coisas que não se devem fazer. Sempre trabalhei me baseando no que sentia, ainda é assim que o faço, e esse é o único caminho para fazermos algo único. Tem de sair de quem somos enquanto pessoas.” A atitude rebelde, materializada na revista “Ray Gun” e noutras publicações, forçou os leitores a uma nova abordagem, já que na sua visão as letras numa folha em branco podem ser arte além de informação. “Não estou entendendo essa página. De um lado espaços enormes em branco, do outro texto empilhado ao ponto de se tornar ilegível? Linhas inteiras começando e terminando fora da página? Que merda é essa?” O email era do diretor da revista londrina “Surfer's Path”, que convidou Carson para desenhar uma edição especial. Um cara “hipócrita”, que nada entendia de “paginação ou interação humana”. “Então, todos os designers sabem, até os leitores, de forma intuitiva, que o espaço em branco é bom e pode ser uma ferramenta muito útil”, argumenta.

Uma das problemáticas edições

Teve o mesmo problema na “Surfer Magazine”, no início dos anos 90, com os leitores reclamando que o seu estilo era caótico, feio e difícil de ler. Foi aí que concluiu o quão conservadores os surfistas podem ser e, para evitar discussões na redação após as frequentes cartas de ódio, entrou numa de as desviar para que o editor não as lesse. O seu livro, “The End of Print” (1995), com Lewis Blackwell e um prefácio de David Byrne, é tido como umas das mais importantes publicações de design do século xx. Foi considerado pela “Graphis Magazine” o mestre da tipografia, a “Newsweek” escreveu que ele tinha mudado o rosto do design gráfico e a “I. D. Magazine” botou ele na lista dos mais inovadores profissionais da área. Nasceu no Texas, morou na Califórnia e ainda criança se mudou para Cocoa Beach, no estado da Florida (EUA). “Na altura a Costa Leste tinha acabado de descobrir o surfe e a cidade era um dos grandes centros dessa cultura”, recorda, ainda bem conservado e com um porte atlético. Foi aí que começou a surfar, por volta dos 12 anos. “Por ser da Califórnia” foi eleito presidente de turma no 8.º, no 9.º e no 10.º ano, no colégio onde Kelly Slater mais tarde estudou. Surfista profissional no fim dos anos 70 – chegou ao oitavo lugar do ranking mundial –, Carson lembra um esporte “muito mais primitivo em comparação com os dias de hoje”. “A gente ganhava troféus e os patrocinadores nos pagavam com bermudas. Tive inclusive um modelo personalizado de prancha mas era a época do soul surfe, anticompetição e fatos de borracha pretos. Aos 18 anos viajei para os Barbados, sozinho, durante três meses para, pensei eu na altura, tirar o surfe do meu sistema antes de ir para a faculdade. Agora, 40 anos depois, aqui estou eu olhando para o pico na frente de minha casa esperando um swell que deve estar chegando em breve.”

O designer em Cane Garden Bay, nas Ilhas Virgens Britânicas

Teve em Miki Dora (1934-2002) o seu ídolo pela sua atitude rebelde e estilo de surfe. Diz que existem semelhanças na vida de ambos, até no título do livro que foi escrito após a sua morte, “All for a Few Perfect Waves”. “Ele perdeu muitas coisas ao longo da vida, ganhou outras devido ao espírito incansável. Tem um ditado que fala que é bom nunca conhecermos os nossos heróis e talvez tenha sido esse o meu caso com o Miki. Dei de caras com ele uma vez na ‘Surfer Magazine’ mas nunca chegámos a falar a falar. Era daqueles caras que vivia o momento mas morreu sem mulher ou filhos.” Em 1977 se formou em Sociologia, com “distinção”, pela San Diego State University e foi professor na Torrey Pines High School, na Califórnia, entre 1982 e 1987 – período em que entrou pela primeira vez em contacto com o design gráfico. “Como professor tinha férias de Verão e fiquei sabendo de um workshop numa faculdade do Arizona. Nunca tinha ouvido falar da expressão ‘design gráfico’, não fazia a mínima ideia do que era, mas quando li a descrição do que iria ser falado me pareceu realmente interessante.” Pouco tempo depois, nascia o estilo grunge no mundo da paginação. Primeiro na “Transworld Skateboarding”, se solidificando em seguida na “Beach Culture” (esteve lá de 1989 a 1991), que acabou por ser um fiasco comercial, na “Surfer” (1991-1992) e finalmente na “Ray Gun” (1992-1995), uma revista de música e moda, que rapidamente se converteu num sucesso internacional. Trabalhou como consultor de design para clientes como a Levi’s, a Nike ou a Pepsi e foi responsável por anúncios publicitários para a American Express ou a Coca-Cola. Atualmente, divide a sua vida entre os escritórios em Del Mar, na Califórnia, Zurique, na Suíça, e em Cane Garden Bay, nas Ilhas Virgens Britânicas, onde passa os Invernos. “É um lugar lindo, mas se não tem surfe acabo passando mal. O design quase não existe e lá toda a arte é muito tradicional. No outro dia descobri que os moleques tinham andado a estudar o meu trabalho na escola, o que me deixou surpreendido. Conheci o professor de Arte e a gente combinou de fazer umas palestras. Foi divertido.”

A "Ray Gun", a famosa revista alternativa americana, foi publicada pela primeira vez em 1992 e tinha Carson como director de arte

E os seus clientes ainda esperam um Ray Gun David Carson quando o contratam? “A minha abordagem aos assuntos é a mesma, mas felizmente o trabalho evoluiu. Quando olho para esses tempos, tem várias páginas que detesto e outras de que ainda gosto. Ao longo dos anos tem havido clientes que me pedem coisas do estilo Ray Gun, seja lá isso o que for. Mas também acabei perdendo muitos trabalhos porque as pessoas tinham medo que o resultado final fosse esse.” No seu currículo está ainda a reformulação do conceito gráfico da revista “Trip” e ficou encantado com o jeito apaixonado, despretensioso e alegre da cultura brasileira. E, claro, como não poderia deixar de ser, com as “moças incrivelmente bonitas e simpáticas”. “Era capaz de morar aí.” Safado. Quer saber mais sobre David Carson? Confira aqui a palestra que o cara deu para as conferências TED.

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