AGUARDE
24 abril 2014

Derek Hynd

A cruzada de ir pra esquerda num mundo fodido à direita

Enigmático e sem filtros, Derek Hynd é conhecido por, nos seus textos, gostar de botar o dedo na ferida. Tem quem diga que por causa da sua estatura pequena e magra, do nariz de judeu e dos olhos caídos e cansados ele faz lembrar Bob Dylan nos anos 70, numa versão sem maquiagem. Porém, em cima de uma prancha, o jornalista, de 57 anos, parece bem mais novo. Para Richard Tognetti, conceituado violinista, diretor da Australian Chamber Orchestra e discípulo de Derek, a juventude é um princípio fundamental da doutrina religiosa do seu mentor  – o Culto da Não Fricção (ou, para leigos, surfe sem quilhas).

Como foi a sua infância nos arredores de Sydney?
Os arredores de Sydney eram inocentes e tranquilos nos anos 60. Vivi no lado oeste, até aos dez anos, onde a diversão girava em torno de futebol, acampamentos de escoteiros e cachorros. Depois a gente se mudou para as praias a norte e os tempos livres dividiam-se entre futebol, cachorros, críquete e surfe. Era perfeito. Era feliz. Me deixavam fazer surfe quando queria. Era o mais novo dos meus amigos e isso acabou me salvando, porque vi eles se misturando com uma turma de caras mais velhos que consumiam drogas. Todos pararam de surfar. Foi uma lição que nunca esqueci.

Quando recebeu a sua primeira prancha de surfe? Quem lha deu de presente?
Tinha 11 anos. O melhor amigo da minha mãe, filho da Audrey Forsyth [a primeira surfista australiana], tinha deixado de surfar por causa do trabalho, e ela deu a prancha dele pra minha mãe. Depois de surfar com ela, uma 9’6’’ – ou só me meter em pé, porque, para ser sincero, era um verdadeiro toco e mal dava para cortar a onda –, transformei-a numa 6’11’’ moderna. Estávamos no início de 1969. Antes desse período andava com o longboard do meu irmão na Narrabeen Lagoon. Era o mais longe que me deixavam ir. Não sabia nadar. Depois me meti nas pranchas de isopor mas eu ainda não sabia nadar muito bem e por isso me concentrava apenas em não cair. Por essa altura andava também com colchões infláveis, tão populares na Austrália nos anos 60.

Quem eram os seus ídolos quando começou a surfar?
Quando comecei a surfar o meu irmão mais velho, o Rod, já era muito bom, ele tinha quase mais três anos do que eu. Tive a sorte de surfar com ele porque precisava de outra pessoa (eu) para o ajudar a carregar a prancha até à praia. Além do meu irmão, o primeiro surfista que me lembro de considerar muito bom era um cara mais velho de Newport chamado Greg Anderson. Eu tinha 12 anos e ele devia ter para aí uns 18.

Você se formou em Economia pela Universidade de Sydney em 1978. Porquê Economia?
Porquê Economia? Gostaria de dizer que foi por naquele tempo andar fascinado com os ciclos econômicos de lucros e perdas mas, na realidade, não entendia nada de Matemática Computacional e por isso mudei de curso. Também andava estudando História e não me importava de fazer os trabalhos. Mais tarde fui para Planeamento Urbano e Economia Política, ambas áreas de esquerda.

No ano seguinte a se ter formado você entrou para o circuito mundial de surfe. Como recorda esses tempos? Você era um cara competitivo?
Sim, era competitivo. Eu dirigia o clube Newport Plus em Sydney e a gente estava sempre medindo forças entre nós e mais ainda contra outros clubes. Foi um período intenso competitivamente, que terminou com seis surfistas do nosso clube de 40 no top 32 do ranking mundial da IPS [International Professional Surfers, organização antecessora da ASP]. Mas eu não fui feito pra ser um surfista profissional. Nem sequer pensava em chegar lá perto. No entanto, me dei bem contra o Dane Kealoha em Narrabeen, em 1979 – alguns meses depois de terminar a universidade em Sydney. Depois o meu patrocinador, o Terry Fitzgerald, pediu para que eu fosse no Japão participar em quatro provas durante o mês de Maio. Estava pensando em voltar para o trabalho, mas a coisa acabou ganhando proporções maiores.

Você se afastou da competição tinha 25 anos. Porque tomou essa decisão?
Nem sequer me lembro que idade tinha. Você parece estar mais informada que eu. Se tinha 25 anos, então já estava velho. Eu queria voltar para a faculdade e foi o que fiz. Tinha perdido a visão de um olho há não muito tempo e alcançado o que queria da competição na altura após o acidente. Me estava sentindo bem por desistir. As minhas pranchas eram uma porcaria naquele tempo. Se não tivesse desistido teria saído pela porta dos fundos. Além disso, escrever estava nos meus planos quando, no evento principal no Japão, o organizador decidiu sem motivo algum fazer a minha bateria contra o Dane Kealoha às seis da manhã em ponto. Sim, e sem me avisar. Quando merdas dessas acontecem, uma mensagem está sendo entregue a você.

Quando é que surgiu a ideia de surfar sem quilhas?
O surfe livre de fricção surgiu na minha cabeça no fim dos anos 90, quando vi um carro que ia na frente em Daytona perder o controlo e mesmo assim aumentar a vantagem perante os que o perseguiam. Depois, em trabalho com o Jack McCoy, quando estava pesquisando para o filme “Blue Horizon”, comecei querendo desconstruir tudo isso para ver quanto tempo eu demoraria alcançar o nível do Buttons em pranchas livres de fricção, partindo do zero. Competi contra ele. Conhecia o nível dele. Já tinha 48 anos mas estava na disposição de abandonar as quilhas e começar tudo de novo. A ideia também surgiu quando uma namorada minha estava aprendendo a surfar. Quis ser solidário com ela e deixei as quilhas. Além disso, andava bolado com a destruição da Fish pura por fabricantes e shapers que arruinaram com o seu design, transformando-a na glorificada Thrusters dos anos 80 [prancha com três quilhas]. Chamaram-lhe Fish e destruíram a alma do último design puro que existia. Penso que quis fugir de uma indústria oportunista claramente de direita e algumas coisas começaram fazendo sentido. Foi uma decisão fácil numa direção que muitos não queriam seguir.

“Filosofia da não fricção”, “nova religião” são expressões a que recorre com frequência. Existe alguma razão ideológica atrás do surfe sem quilhas?
A filosofia é o escape e a progressão, a exploração do desconhecido. Lhe dar um sentido, nunca descansar à sombra dos louros, ir pra esquerda num mundo fodido à direita.

As suas previsões são por regra acertadas, mas no final da época de 1988 disse que Martin Potter não tinha hipótese no ano seguinte e ele acabou sendo campeão do mundo. Vocês falaram sobre isso mais tarde?
Na altura não tinha muitos pros que falassem entre si a não ser que fossem da mesma laia. Tudo era muito estanque de empresa para empresa e de time para time. Cristãos e não-cristãos, caras limpos e consumidores de drogas. Não, a gente não falou sobre isso durante alguns anos. Estava atordoado e ao mesmo tempo impressionado com ele por ter arrebentado com o circuito nesse ano. Me lembro que estava treinando o Marty Thomas e no início desse ano ele acabou com o Marty, que nesse período estava em alta, lá em Manly. Me falou qualquer coisa ao sair da água, bastante pesada mas de uma forma inspiradora, tipo o “você ainda não viu nada” do Al Jolson mas com alguns palavrões. Apesar de ele ter aparentemente usado as minhas palavras como instrumento de motivação, a magia foi convincente. A forma como arrasou com o Damien Hardman na final em Bells foi incrível. O Occy em 84, o Pottz [Martin Potter] em 89, o Curren em 90… esse níveis teriam dado trabalho ao Kelly em qualquer ano. A preparação do Pottz com uma prancha de uma quilha só com canais do Stuart Cadden foi incrível. Fez com que ele brilhasse com o material de competição. Jogava muito mais água nas suas ondas. Errei. Mãos para o alto! Sou o primeiro a admirar o surf mágico e ele teve-o para dar e vender durante a primeira metade dessa época. Atrás da minha análise penso que esteve a decepção pelo seu fracasso nos cinco anos anteriores. Além disso, dado o seu estilo de vida, ele também não se empenhava como o Caroll em 83, o Occy em 84, o Curren entre 83 e 86 ou o Hardman em 87. Mas lhe dou todo o mérito. Espero que a história se acerte quando chegar a hora determinar as grandes épocas dos grandes campeões.

Trabalhou com Mark Occhilupo, falou nisso há pouco. Como é a sua relação com ele?
Não falo com o Occy. Em 20 anos vi ele uma mão-cheia de vezes. A vida é assim. Círculos diferentes, lugares diferentes, hábitos diferentes. É um cara adorável, caloroso, generoso, entusiasta, atencioso, ideal para treinar em 84, até o lado social ter arruinado com ele.

Se fala muito da nova geração e do surfe progressivo. No começo do ano passado tanto Gabriel Medina como John John Florence se machucaram no tornozelo em manobras aéreas. Depois Slater falou para eles terem muito cuidado durante os próximos 20 anos. A forma de julgar as ondas mudou  e esses moleques são responsáveis por isso. Porém, você acha que o surfe e a forma de julgar estão no caminho certo?
Qualquer deles é tão bom quanto a sua segunda lesão na mesma articulação. Há anos que o digo. Com a passagem do julgamento para o ar, o estilo antigo a sair pela porta e o novo em vigor, qualquer surfista novato no circuito vai tentar ultrapassar os seus limites. É como a idosa ou o idoso que está muito bem até à sua próxima queda. Eles não se podem dar ao luxo de se jogar para uma manobra de alto risco não estando em total controlo da situação pois arriscam-se a machucarem-se. São potenciais momentos catastróficos numa carreira. Penso que o sistema tem posto mais ênfase nas manobras que no estilo. Talvez os caras no topo consigam passar aos outros a mensagem de que andar aos saltos não é assim tão vital. Quanto ao comentário do Kelly, pode ser uma lesão para a vida e não por 20 anos. O Tom Carroll arrebentou com o joelho por volta dos 16 anos e nunca se recuperou a 100%, nem nada que se parecesse. Ainda está mal. Merdas dessas acontecem. O Medina machucou o tornozelo no circuito, eu perdi um olho. Os riscos não surgiram apenas agora, mas o surfe profissional podia olhar para a natureza radical versus a necessidade de criar um novo ambiente/contexto.

É um crítico do jornalismo de surfe. Acha que o problema da imprensa especializada é semelhante ao que foi abordado por Shaun Tomson no famoso artigo “Pros Before Bros”? Ou haverá falta de assunto?
O jornalismo de surfe pode ser fantástico de ler. O texto do Shearer sobre a Gold Coast há uns anos é um bom exemplo. O jornalismo de surfe invasivo concebido para a juventude é, basicamente, pueril. Não vale o comentário. No entanto, o jornalismo de surfe invasivo não é o jornalismo de investigação do Shearer. Grande parte do jornalismo no surfe não vale nada, não vamos nos iludir. Raramente é de investigação. O Steve Shearer é o melhor nisso. As coisas genericamente estereotipadas são fáceis de fazer, particularmente com a opção suave e vaidosa da escrita na primeira pessoa. Talvez consiga chegar a uma nota alta quando for escrita a história do que realmente aconteceu no circuito, dentro e fora da competição. Mas o que a gente tem hoje em dia se deve ao ambiente controlado pela indústria, tão exposta como o indivíduo. Assuntos existem, claramente, mas neste momento o risco de pintar a verdade sobre a indústria desde o início do surfe profissional, nascida entre maus hábitos, não vale o sofrimento. Se estivesse acompanhando o circuito, estaria olhando para as histórias secundárias/paralelas. Como alguns comentários na internet são lamentáveis, por exemplo, a forma como o diretor de prova do Quiksilver Pro no ano passado na Gold Coast falava de apostas e como um moderno sul-africano [Damien Fahrenfort], num retrocesso à pro dos anos 80, andava para lá tecendo comentários sexistas sobre os surfistas profissionais e as jovens fãs. Isso é escandaloso numa era supostamente iluminada. A ambos deveria ter sido dado um bilhete só de ida, principalmente ao porco neo-sexista.

No começo do ano passado foram publicadas várias notícias sobre o uso de drogas. Slater disse que o uso de drogas recreativas estava a aumentar no circuito, depois um jornalista australiano escreveu que Kelly tinha o perfil de um suspeito de doping e em seguida Kelly ficou irritado e reagiu. Porque é que a ASP é tão cautelosa com esse assunto? Você acha que os testes antidoping deviam ser realizados com frequência? Se bem me lembro, o brasileiro Neco Padaratz foi o único surfista a ser punido pelo uso de drogas. Mas, aberto esse precedente, o critério não deveria ser mais justo?
Sim, definitivamente, deveriam ser feitos testes antidoping rigorosos a atletas, dirigentes, team managers e patrocinadores numa base regular e aleatória. Talvez todos estejam limpos, talvez. Não li essas notícias nem ouvi essas afirmações. É a primeira vez que me falam do assunto e o que me vem logo à cabeça é, coitado do Kelly. Suspeito de doping? Me poupem. Imagine um moleque de 13 anos, daqueles que só aparecem de 50 em 50 anos, se tornando conhecido como a grande promessa, quem sabe maior que Curren, e acabando por se tornar nisso mesmo – com cortesia, perspicácia, capacidade de resistir à pressão e uma flexibilidade que lhe permite escolher qualquer via no surfe de competição durante o tempo que lhe apetecer. É um campeão. Manhoso? Talvez, em competição. Mas não é tão manhoso quanto o Lance. Não precisa de ser. O circuito da ASP é o oposto da Volta a França e à pressão de uma única prova de ciclismo durante todo o ano. As exigências físicas e mentais para o atleta da ASP não têm qualquer semelhança – ao contrário das que enfrenta o camisola amarela da Volta a França, isso para não falar dos desgraçados do pelotão que têm de obedecer às ordens do líder ou dos donos do time. Se não fossem permitidos leash com Pipeline e Sunset grandes e as provas da ASP durassem 30 dias e tivessem pontuação cumulativa, aí sim, os requisitos para os atletas da ASP seriam como os dos ciclistas de alta competição. O jornalista que questionou o Slater sobre as drogas, insinuando que, pelo facto de ele ganhar a moleques com a metade da sua idade, poderia estar sob doping é simplesmente um babaca que não entende nada da facilidade com que Slater opera no sistema que comanda. Isto em oposição à pressão do Armstrong, que se afundou enquanto tentava controlar um ambiente extremamente difícil. A postura não agressiva do Slater na primeira ronda é clara e o facto de os atletas o permitirem recua aos dias em que o Kelly era um novato e o seu tendão de Aquiles um oponente provocador. Em vez de andarmos a botar o cara pra baixo, devíamos admirar a maneira como ele consegue deslumbrar os fãs fora de água. O high five que fez ao Rob Machado em Pipe há uns anos foi um gesto simbólico do controlo total através da personalidade. Se tivesse competido na era do Pottz e do Curren ou até do Shaun, do Dane, do Bugs e do Cheyne, a sua carreira não teria sido tão longa. A sua personalidade dócil não teria sido admirada nem no pico nem na areia.

Para terminar, sei que é fã de futebol. Messi ou Cristiano Ronaldo?
Messi teria de jogar no Arsenal de Arséne Wenger ou no Manchester United de Alex Ferguson para dar uma resposta concreta. Messi, não há dúvida que está sempre presente nas jogadas finais desse exemplo definitivo de equipa de xadrez rápido, mas Ronaldo tem a magia que Messi não consegue criar tão facilmente. Resposta final: Ronaldo, por um fio. Acho a Liga espanhola fantástica mas com o Barcelona por vezes é demasiado parecido com um xadrez perfeito. Não nego que haja poesia nos dois. Mas só poderia comentar completamente, como disse antes, se Messi jogasse uma temporada no Manchester United, sob as ordens de Ferguson, ou no Arsenal, treinado pelo Wenger. Precisaria da análise comparativa. E você?

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