AGUARDE
11 outubro 2016

Desculpe o transtorno, mas preciso falar de Tomate.

O quarto disco do extinto grupo Kid Abelha abriu caminho para a consolidação da banda, mas a crítica, como sempre fazia na época, torceu o nariz.

Voltemos para o Brasil de 1987, o Rock Brasil já havia promovido sua primeira peneirada e a banda precursora do movimento, a Blitz, encerrara seus trabalhos no ano anterior. Legião Urbana estava colhendo os louros do antológico albúm “Dois”e os Paralamas do Sucesso colocavam nas prateleiras seu primeiro registro ao vivo, captado em Montreux, o festival mais prestigiado do planeta Terra.

 

No meio disso tudo, o Kid Abelha, que ainda mantinha “e os seus abóboras selvagens”atrelado a seu nome, trazia um disco muito aguardado por quem curtia o grupo, por quem queria que ele fosse de uma vez por todas defenestrado do cenário brasileiro e principalmente pela gravadora, já que aquela altura a banda havia acumulado 470.000 cópias vendidas em seus três álbuns anteriores, padrões inimagináveis para os dias atuais.. O motivo dessa expectativa foi a saída do “mentor/músico/letrista/cantor/dono da porra toda”Leoni, que ao ser preterido durante uma apresentação com Léo Jayme, acabou levando uma pandeirada de Paula Toller e com isso, se retirou da empreitada.

 

No meio desse pequeno imbróglio, Paula, George e Bruno convocaram o baterista Claudinho Infante para ser o quarto Kid Abelha, gravaram o disco no Brasil e mixaram em Londres, procedimento muito comum para os grandes medalhões da época, exceto uma faixa.

A música “Amanhã é 23”' tocou nas rádios bem antes do lançamento do disco, porque foi tema de novela, e já revelava versos bem construídos, uma levada de bateria bem longe do convencional, o sax de George Israel altíssimo e a voz de Paula cada vez mais bem colocada, explorando os graves e exibindo o progresso das aulas de canto. A letra tratava de um tema autobiográfico, o abandono. Um tiro certo. Por conta desse adiantamento, a faixa foi a única mixada no Brasil, e por incrível que pareça, é a melhor do disco. A impressão que se tem, ouvindo Tomate em perspectiva, é que os técnicos londrinos não entendiam muito bem do que se tratava aquele grupo. A gente percebe as guitarras de Bruno altíssimas, bem como a bateria de Claudinho Infante e o competente sax de George Israel, mas a voz de Paula fica o tempo todo lá atrás, com a sensação de coro, não de band leader. Tirando esse detalhe, que torna o álbum mais peculiar ainda, Paula assume o posto de letrista e se sai muito bem. Aproveita que a caneta está na sua mão e destila ironia, veneno e catarses em seus versos. As linhas melódica de George se encaixam perfeitamente no empoderamento proposto por Paula, bem antes da criação desse termo.

 

 

Como era comum na época,a crítica detonou o trabalho, como já havia feito com os outros discos do Kid. Ao pesquisar rapidamente na internet, é nítido o posicionamento de quem escrevia sobre música nos anos 80: eu gosto é ótimo, eu não gosto é um lixo. A banda estava entre os top 10 na lista dos mais odiados pela imprensa especializada. Mas como o público é que manda, Toamte virou um show incrível e com uma produção pouco comum para os padrões da época. Assisti o espetáculo no Maracanazinho, no Rio de Janeiro, e mesmo com a acústica horrível do lugar, todo mundo saiu magnetizado. Logo depois do lançamento do disco, Paula Toller cortou e descoloriu os cabelos, adotando um visual que ajudou a construir sua imagem de sex symbol, que ela carrega até os dias de hoje. Reza a lenda que essa mudança de postura foi resultado de uma bronca do diretor da Warner Brasil, Andre Midani, que havia perguntado a Paula porque ela não era simpática com o público. Fato ou boato, tanto faz, a verdade é que depois de Tomate, o disco e o show, os abóboras selvangens foram retirados do Kid Abelha e antes de encerrarem seus trabalhos em abril desse ano, ficou claro que independentemente do gostar ou não da proposta soft rock do trio, o legado da banda é incontestável.   

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