AGUARDE
27 agosto 2014

Ecos de uma vitória histórica

Saiba o que foi escrito na imprensa internacional sobre a vitória de Gabriel Medina em Teahupoo

SHANE DORIAN Gabriel Medina tem mais pessoas o odiando do que qualquer surfista que eu possa imaginar. Não acredito na quantidade de merda que têm falado sobre esse garoto. Um moleque que tem 20 anos e venceu Kelly de uma forma justa e clara numa final absurda em Teahupoo. Estou tão entusiasmado por ver alguém novo se afirmando contra os melhores, liderando o ranking e fazendo estragos sob tamanha pressão. É incrível que ele seja patriótico e esteja fazendo tudo isso com o seu país o apoiando. Na minha opinião, ele arrasou em Teahupoo e mereceu vencer. São tempos incríveis para o surfe e, como fã, mal posso esperar para ver como é que a corrida pelo título se vai desdobrar! Esperemos que o Kelly e o JJF continuem na sua forma estupenda, bem como o Gabriel Medina. #talkischeap (#papofurado) #HatersGonnaHate (#osqueodeiamvaoodiar) SURFLINE Uma final entre Medina e Slater não é novidade mas houve algo nessa vez que tornou o encontro entre os dois diferente, mais oficial, mais marcado pela mudança. A partir do dia em que a previsão do swell mostrou a promessa de Teahupoo épico as atenções se viraram para o jovem de 20 anos de Maresias, São Paulo, Brasil. Após tantos anos com os críticos o rotulando de maroleiro, essa foi a chance para Medina calar a todos. A sua atenção quase maníaca às táticas de prioridade fizeram com que fosse avançando ileso e pela calada mas também deixaram a impressão de que ele se estava esquivando das bombas. Na final, Medina entrou numa das maiores e ganhou a batalha pela prioridade à semelhança do seu adversário. SURFER MAGAZINE Um fim à M. Night Shyamalan (realizador conhecido por terminar os seus filmes de formas estranhas e bizarras) Lembra quando acabou o filme que o Bruce Willis estava morto o tempo todo? Ou quando as pessoas daquela aldeia estavam de fato vivendo nos tempos modernos? Ou então quando aqueles aliens acabaram sendo alérgicos à água? Todas essas reviravoltas no roteiro ficam insípidas quando comparadas ao Kelly Slater perdendo para Gabriel Medina na final em Teahupoo. Kelly surfa aquela onda melhor que ninguém e ele estava na sua melhor forma. Nós nunca imaginaríamos que isso ia acontecer. Parabéns, Gabriel! BEACH GRIT Duas coisas vão acontecer quando Gabriel ganhar o título: o Kelly vai sair, embora continue fazendo algumas participações especiais em Fiji, Tahiti, talvez J-Bay e Pipe (mas nunca Snapper ou Bells), Kolohe/Nat/John vão entrar no vazio deixado por Slater (sim, são necessários três) e... aos poucos... tal como Slater fez, Gabriel vai se livrar das críticas, uma por uma. Ele vai acrescentar desafios ao seu jogo (lembre-se, Kelly era da Flórida e no começo o surfe de ondas grandes para ele não foi fácil), o seu estilo vai-se soltar e vamos começar a ter legendas nos nossos webcasts. Obrigar um garoto, que é um surfista, falar em uma segunda língua? Diga-me que não é cruel... THE INERTIA Ele surfou um campeonato quase perfeito. Até os últimos dez minutos do Billabong Pro Tahiti, Gabriel Medina não tinha caído em uma única onda. De fato, ele surfou o evento de maneira cerimoniosa, selecionando a melhores ondas, que lhe permitiram ficar mais tempo nos tubos que os seus adversários e o fizeram evitar o horizonte negro ou as desgraças abaixo do nível do mar. Slater, que vinha jogando a cautela pro alto, lançou o desafio antes do final. "Ele tem pegado as ondas mais profundas e pequenas durante todo o evento, enquanto eu tenho tentado ir naquelas que não são completamente uma onda de tow in", disse. Usando uma previsão do tipo visionária, Kelly conseguiu de algum jeito ver um caminho através das bombas de Chopes, colocando-se num limite sublime que o permitiu evitar a espuma. Isso valeu-lhe um dez perfeito para começar a sua semi-final contra John John Florence e, quando Medina caiu pela primeira vez a nove minutos do fim do evento, Slater voltou a repetir a proeza que poderia ter sido novamente uma nota máxima mas não se aguentou. Ainda fez mais duas tentativas pra virar o resultado antes da buzina tocar, mas nenhuma melhor que a primeira. No final, o dia foi do brasileiro de 20 anos - Medina exibindo uma maestria táctica que você simplesmente não consegue ver em muitos jovens de 20 anos no esporte mundial. SURFPORTUGAL A mão de Deus Maradona embalou a Argentina num triunfo histórico frente à Inglaterra no Mundial de 86 com um golo em que utilizou a mão esquerda para introduzir a bola dentro da baliza. O lance ficou conhecido como a "mão de Deus" e a história quase que se encarregou de perdoar a irregularidade face à genialidade do lance. Ora, se Deus usou a mão esquerda nessa ocasião, a outra ficou certamente guardada para este campeonato, que mais pareceu obra divina. "Exalta-te senhor, na tua força. Então cantaremos e louvaremos o teu poder. Que deus me abençoe hoje", foi este o pedido de Medina antes do grande dia. Mesmo colocando a nossa fé de lado, acreditamos que Deus não tenha abençoado só o brasileiro mas também o campeonato inteiro. Gabriel, um verdadeiro anjo descido à terra para os brasileiros, inscreveu o seu nome na lista de vencedores na mítica esquerda taitiana e logo num ano em que se assistiu às melhores condições de sempre. Depois do que se tinha passado nas fases anteriores, poucos acreditavam que o jovem de Maresias conseguiria superar Kelly Slater na final, uma vez que o norte-americano é de outro campeonato nestas condições. Mas Medina provou que a fé pode ser inabalável e foi impiedoso perante o rei, obrigando-o a jogar ao tão famoso Ice Bucket Challenge perante os milhões que assistiam à final do evento. Foi um verdadeiro balde de água fria. Para o careca, para os muitos fãs do careca que torciam pela vitória do melhor de todos os tempos no melhor campeonato de sempre e para aqueles que queriam ver a corrida ao título relançada. (...) É certo que Medina já tem um 13.º e um 9.º lugar que podem entrar nos descartes, mas com esta vantagem dá margem para o 9.º lugar entrar nas contas finais. Ainda assim, faltando disputar quatro etapas, o brasileiro não pode vacilar muitas mais vezes, embora isso seja o que tem acontecido ao longo do ano com todos os seus rivais. Só mesmo Slater é que tem margem de manobra para falhar até final, mas mesmo assim precisa de vencer o seu primeiro campeonato este ano – ou até mais que um... - para se aproximar da liderança. Apesar de ainda faltar muitas contas até ao fim, é seguro dizer que Medina deu um passo de gigante rumo ao título, já lhe tendo colocado uma mão em cima. O tão aguardado campeão mundial brasileiro está a chegar. A faltarem as etapas de Trestles, Hossegor, Peniche e Pipeline, é preciso que Gabe se mantenha regular até final, continuando a exibir a maturidade que tem mostrado até aqui. SURFING LIFE Gabriel Medina venceu este evento porque ele provou ser o surfista mais esperto do WCT. Sentado ali, naquelas condições, e manter o seu plano e a sua tranquilidade não é fácil - mas Gabby fez isso sem suar a camisa. Nem uma única vez, até aos últimos minutos da bateria final, foi apenas aí que Gabriel Medina caiu. E embora esses caras consigam se recuperar das vacas insanas que tomam na cabeça, isso os desconcentra. Os afeta. Mesmo sendo você o cara mais tranquilo, calmo e sereno do mundo, vai levar um tempo pra voltar ao seu ritmo - e quando você está num bateria de 35 minutos, você não tem tempo. Então Gabriel Medina provou a si mesmo, mais uma vez. Ele se provou em ondas pequenas, ele se provou em ondas de merda, ele se provou dando aéreos e agora ele se provou em grandes ondas onde o erro é pago caro. É frustrante escutar os comentadores nas mídias sociais falando sobre a vitória de Gabriel Medina - "Oh, Kelly foi roubado. Gabriel nunca deveria ter vencido. Os juízes não prestam." A lista comentários semelhantes é interminável. Mas deixe-me perguntar-lhe isto - se você substituísse o nome de Gabriel por Nat Young (caso você seja americano) ou Matty Wilko (caso seja australiano), você ainda se sentiria do mesmo jeito? Se a sua resposta for não, então você precisa de fazer uma pausa longa e difícil pra pensar no porquê - porque se você sente um preconceito perante o fato de ter um campeão mundial brasileiro, então você vai ter um caminho difícil pela frente. Tirem os seus chapéus, senhoras e senhores, porque Gabriel Medina é vai SER o primeiro campeão mundial brasileiro. E está hora de você se acostumar com isso.    

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