AGUARDE
15 dezembro 2015

Ivete e Criolo homenageiam Tim Maia

Por Marcelo Aragão

Para escrever essa resenha li vários artigos relacionados ao show que prestou tributo ao soulman e síndico do Brasil Tim Maia, que colocou sob o mesmo palco a mais bem sucedida artista das duas últimas décadas, Ivete Sangalo e o raper/poeta da sociedade/darling dos antenados/mais perfeita tradução de São Paulo, Criolo. Na temperatura contestadora dos nossos tempos atuais, onde corrupção, delação e governo promovem a audiência a verdadeiros juízes do apocalipse e fiéis detentores da verdade, muitos comentários preconceituosos foram gerados sobre a escolha dos dois nomes citados acima. Achei alguns bem peculiares e vou compartilhar com vocês entre aspas, pra não haver dúvida de que foram proferidos por outras pessoas:

O rap e o axé homenageando Tim Maia

“Ninguém aguenta mais essa Ivete, chamam ela pra tudo ...” “Estão cometendo um crime com a obra do genial Tim Maia ...” “Desde quando Criolo é cantor ? Tinham que ter chamado o Claudio Zoli ...” “Mais um evento caça níquel pra iludir esse povo sem noção ...” Resumo da ópera: só faltou panelaço, trending topic no twitter e passeata com black block. Só que ao ler tantos comentários lúcidos (sic) e elaborados (sic), eu já havia travado contato com o recém lançado disco Viva Tim Maia – Ivete e Criolo. Daí, longe de participar dessa celeuma musical/empresarial/póstuma, resolvi compartilhar com vocês minha impressão sobre o álbum e o elenco escolhido para o tributo. Sem pressão, só de boas

A eterna micareteira esbanja carisma

Muito se fala sobre a longevidade e a importância da música de festa que se produz em nosso país, mais especificamente na Bahia. Na verdade, muito antes dessa discussão, está o simples fato de se gostar ou não desse gênero. Não vou levar isso em consideração nesse comentário. Ivete Sangalo dedicou a sua carreira a estádios e trios ao redor do Brasil e há mais de vinte anos é reconhecida como a maior artista desse segmento no país, não sou eu que acho, é um fato que não precisa da aprovação de ninguém. Se você trabalhasse no marketing da empresa de cosméticos que promoveu o show você escolheria outra pessoa ? Mas vamos nos ater aqui ao que mais me chamou atenção em sua performance nessa empreitada: o talento vocal da elétrica baiana. Independente do seu apreço pela carreira bem sucedida da axé queen, Ivete possui um dos melhores materiais vocais da atualidade. Seus graves são incríveis, sua emissão é perfeita, seu domínio vocal é impressionante e há suingue, inventividade na medida certa e acerto na interpretação. Tim Maia ficaria orgulhoso e certamente a elegeria com sua fiel discípula. Inclusive, Ivete poderia colocar mais vezes sua potente voz a serviço de canções que nos permitissem ter acesso a uma intérprete tão criativa, coisa difícil de achar desde sempre, imagina hoje em dia.

Fã declarado de Tim Maia

Nó na orelha é um disco que eu gosto muito, por isso mesmo posso dizer que achei bem complexa a escolha do autor de “Não existe amor em SP”. Tim Maia foi um dos, ou o maior cantor de sua geração. Quando gravou os LPs sobre a Cultura Racional, ele parou de beber, de fumar, de usar barbitúricos e afins, e seu registro vocal ficou límpido, potente a amplo. Com esse legado estabelecido ficou puxado pro Criolo assumir essa função. Quem resolveu esse perrengue foi o terceiro tópico desse artigo

Ganjaman no escritório

Na minha modesta opinião, o nome do disco deveria ser “Viva Tim Maia – Ivete, Criolo e Daniel Ganjaman. Produtor do Nação Zumbi, MV Bill, Sabotage, Planet Hemp, Mão de Oito, Mambojó e do próprio Criolo, Daneil ficou com a roubada de rearranjar canções que já nasceram como clássicos e que tinham suas execuções tidas como irretocáveis pela crítica e audiência. E quem foi o louco que chamou um nome ligado a cena alternativa para pilotar um projeto que tinha como objetivo homenagear Tim Maia e que contava com Ivete Sangalo como uma das intérpretes ? Será que foi o Criolo ? Se foi, parabéns meu querido, já justificou seu presença nesse tributo. Ganjaman fez arranjos incríveis, nada óbvios porém totalmente de acordo e fiéis as intenções das propostas originais. É possível reconhecer as canções, mas elas exalam um frescor que não necessariamente as descaracteriza, muito pelo contrário. Há muitos metais com arranjos surpreendentes, guitarras altas e com frases incríveis e suingue, muito suingue. Daniel fez a ponte entre as décadas, entre os estilos dos cantores, entre os registros das obras, e apresentou um Tim Maia que não soará estranho ao micareteiro, mas que também não irá torcer o nariz do mano do gueto.

Tim jamais será esquecido

 

Brilhante do início ao fim, principalmente se levarmos em consideração a exposição desse repertório e a quantidade de artistas que já utilizaram essas músicas. Destaco duas que grudaram no meu ouvido já na primeira audição: “Coroné Antonio Bento”, com sua levada pré Mangue Beat e o momento em que Criolo parece se sentir mais à vontade e “Telefone”, onde Ivete dá uma aula de “como cantar muito bem uma música que já foi muito bem cantada por alguém que canta muito bem”, alem de Daniel ter acentuado os grooves dessa balada, colocando o baixo pra gritar nas transições das notas. Enfim , viva Tim, viva Ivete, viva Criolo, viva Daniel e viva a música.

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