AGUARDE
01 setembro 2016

JAMZ põe mais açúcar no acento pop, mas não abandona seu potente DNA

Por Marcelo Aragão

Durante o domínio da indústria fonográfica brasileira, que durou até o início dos anos 2000, todos os artistas que iniciavam suas carreiras musicais temiam o lançamento do segundo disco. Se o primeiro trabalho tivesse feito sucesso, esperava-se que o segundo mantivesse a posição. Em caso de pouco reconhecimento, havia a expectativa do sucessor recuperar o prejuízo. Nas duas ocasiões, a tensão estava presente. Mesmo com as mudanças das ferramentas de divulgação e distribuição dos trabalhos, o famoso desafio de uma segunda produção ainda não perdeu sua força. Um exemplo claro disso é JAMZ, que se saiu bem nesse embate. É verdade que rolou mais açúcar no acento pop, mas é inegável o talento musical do quarteto, reconhecido por ouvidos mais exigentes. Capa do CD

Elaborado com mais calma do que o bem sucedido disco de estreia, o recém-lançado “Tudo Nosso”, produzido por Marco Vasconcellos, chega com 11 faixas, mas dessa vez todas autorais. Os temas são basicamente relacionamentos e seus diferentes estados: apreensão, desentendimento, proximidade, distância e por aí vai. Questões que sempre reverberam de alguma forma em todos os mortais. Gravado no emblemático estúdio Toca do Bandido, no Rio de Janeiro, o disco apresenta uma sonoridade bastante coesa, que provavelmente é fruto da estrada. As guitarras de Paulinho Moreira costuram o som da banda e dão energia e suavidade quando necessárias. Suas levadas são bem criativas e isso faz muita diferença em todas as faixas da bolachinha. O mesmo acontece com o teclado/piano de Gustavo Tibi, que no primeiro trabalho colocou voz numa das canções. Agora, dedicado ao seu instrumento, fez lindas linhas e propôs grooves bem interessantes. Essa sensação de homogeneidade e excelência fica bem evidente na faixa que dá nome ao trabalho. Ela começa leve, calcada na repetição de duas notas do teclado e explode no refrão com a guitarra wah-wah de Paulinho Moreira e com a cozinha potente da bateria de Pepê Santos. Pra mim é o destaque absoluto, aqueles temas que ao ouvir a primeira vez, você já considera pra caramba. Tem groove, tem peso, tem suingue, enfim, é um petardo.

O disco também conta com duas participações que jogam pra galera, mas não corrompem a genética da banda. A primeira é Ivete Sangalo, que não precisa provar que sua voz sobrevive fora do trio e é bem maior do que qualquer circuito Barra/Ondina, mas ainda é positivamente surpreendente ouvi-la longe dos atabaques e do arsenal de metais que sempre a cercam. A faixa se chama ”O que o amor precisa”, e é lindamente entrecortada pelo belo piano de Gustavo Tibi. A outra convidada é a carioca sangue bom Anitta. Antes que você torça o nariz, dê um crédito à moça, que pode não estar na lista das dez melhores cantoras dos últimos 15 minutos, mas sabe jogar o jogo muito bem e não dá passos maiores que suas pernas. A música se chama “Você aqui”, que não faria feio como tema de qualquer personagem sofredor de telenovela, se não fosse mais uma vez o piano pungente e bem executado de Gustavo Tibi. O refrão, com cordas lindamente escritas por Eduardo Farias, também ajuda a reconsiderar o tema e pensar que ele poderia ajudar a superar uma possível dor de cotovelo sincera.

Pra terminar, vale a pena destacar o crescimento vocal de Will Gordon, também responsável pelo baixo. Dono de uma técnica invejável, o moço se aproveita disso e consegue utilizar seus recursos de “voz de cabeça" de forma muito inteligente. Sem exagerar, sem malabarismos. Sua forma de interpretar as canções é um importante patrimônio pra impressão digital da banda. Na difícil tarefa entre fazer o que a audiência espera ou aquilo que dá mais prazer, a JAMZ ficou no caminho do meio, sem fazer feio em nenhuma das duas possibilidades. Pra quem quiser acompanhar o diário de gravação, os vídeos estão disponíveis no canal do Youtube da banda. Tudo Nosso é bem bacana.

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