AGUARDE
25 agosto 2014

Luli Pereira - o Juiz brasileiro no WCT

Junior Faria numa conversa reveladora e exclusiva

Por  Junior Faria
Vou passar um café.
Assim começou a conversa na cozinha de uma casa bem aconchegante em Balneário Camboriú, SC. Luli Pereira, juiz da ASP há quase dez anos, ainda estava com sono naquela tarde nublada de domingo. Aproveitava um raro período de férias, já que seu calendário é quase completamente ocupado pelas etapas do circuito mundial.
Ex-surfista profissional, atualmente ele é head judge dos eventos Prime da ASP e juíz nas etapas do WCT. Luli tem um background que poucos juízes sustentam. Além de ótimo surfista, tem títulos importantes no seu currículo de competidor: foi campeão catarinense amador e esteve entre os melhores profissionais do Brasil na primeira década dos anos 2000. Ah, e também é bacharel em Direito.
Mas acima de tudo isso, têm o respeito dos atletas que julga porque ainda mostra muito surfe no pé quando entra na água nos dias de folga.

 

[caption id="attachment_6101" align="alignnone" width="720"]Antes de mais nada, Luli tem a alma salgada Antes de mais nada, Luli tem a alma salgada[/caption]

Minha geração foi muito boa. Na adolescência eu competia com o Neco, Renatinho Wanderley, Binho Nunes.
Luli começou a surfar aos oito anos influenciado pelos irmãos mais velhos. Primeiro com pranchas de isopor, depois com uma prancha re-shapeada pelo irmão: Ele desencapou uma prancha dele e fez uma pequena pra mim.
Sua modéstia faz com que a lista de títulos que conquistou como surfista seja revelada só mais tarde, e não por ele, mas por recortes de jornal que ele guarda em um armário embaixo da escada.
Enquanto conversamos ele abre dois livros enormes na mesa da cozinha. São retalhos de revistas, jornais, fotos, centenas de lembranças. Muitas matérias tem seu nome no título.
O retrato do garoto sorridente de cabelo amarelo aparece nas páginas também amareladas pelo tempo. É fácil perceber que durante sua adolescência a mídia apostava naquele garoto.
Antes dos 15 anos Luli já se destacava nas competições. Foi patrocinado por marcas como Quiksilver e Bad Boy mas não teve o apoio necessário no período mais importante da carreira, por volta dos 20 anos, quando tinha potencial e vontade para encarar o circuito mundial.
Acho até que os bons resultados que tive no amador me desgastaram quando cheguei no profissional, com 18 anos. Acho que eu esperava ter resultados melhores e condições financeiras de acordo com o que eu acreditava que era justo pra mim, ele confessa enquanto deixa escapar um brilho honesto no olhar, de quem se recorda do passado com saudade.
No profissional Luli teve bons resultados no Circuito Brasileiro e competiu etapas do WQS. Chegou a trancar a faculdade de Direito por seis meses para se dedicar exclusivamente ao surfe. Conseguiria seu diploma só aos 28 anos, exatamente dez anos depois de se matricular.

Continuei competindo mas estudando também. Era a maior correria. Já cheguei a sair de campeonato, pegar o carro e ir direto pra faculdade fazer prova.

 

[caption id="attachment_6103" align="alignnone" width="960"]Nas horas vagas, Luli fazendo o que mais gosta Nas horas vagas, Luli fazendo o que mais gosta[/caption]

Em 97 resolvi me dedicar mais a competição. Corri algumas etapas do Circuito Mundial e usava a premiação para seguir adiante, apesar de ter um patrocinador na época. Entrei no Super Surf (elite do circuito brasileiro profissional naquele tempo) e consegui bons resultados como nono, décimo-sétimo... Depois senti que minha perspectiva no profissional não estava como eu queria e resolvi voltar à faculdade, paralelamente ao surfe. Continuei competindo mas estudando também. Era a maior correria. Já cheguei a sair de campeonato, pegar o carro e ir direto pra faculdade fazer prova.
Luli também morou na California por seis meses. Quando voltou ao Brasil começou a se envolver com julgamento em campeonatos amadores em Balneário Camboriú e em outros lugares do estado de Santa Catarina.
Alejo Muniz, Tiago Bianchini, Willian Cardoso, todos esses caras eram moleques, vi eles crescendo.
Sua transição de surfista profissional para juiz foi gradativa. Era comum para ele competir uma etapa do circuito brasileiro profissional e no final de semana seguinte ser juiz de campeonato amador, sentado ao lado dos jurados que lhe davam notas há poucos dias atrás.
Eu ia sempre protelando minha saída da cena de competidor. O Paulo Motta e o ‘Papel’ (juízes do circuito brasileiro) me convidaram para julgar uma etapa do Pro Jr no Rio de Janeiro e me falaram que se eu quisesse parar de competir, teria condições de julgar o Super Surf  já no ano seguinte.

[caption id="attachment_6104" align="alignnone" width="960"]Não basta ser preciso dando notas. Luli praticando o que prega - Bordas na água. Não basta ser preciso dando notas. Luli praticando o que prega - Bordas na água.[/caption]

Luli passou a frequentar mais os bastidores e mais convites surgiram. Curiosamente, foi um juiz que Luli ajudou a formar, o ex-surfista profissional Ícaro Cavalheiro, que lhe colocou na ASP. Ícaro era juiz do circuito mundial no começo dos anos 2000 e chamou Luli para trabalhar em 2004.
E depois de se tornar juiz da ASP Luli passou a se dedicar exclusivamente ao ofício. Em 2005 eu fiz um estágio no WCT e em 2006 eu já passei a julgar várias etapas, e assim foi.
Sua fala pausada, de timbre tranquilo, mostra segurança. É interessante notar a mudança na sua expressão ao falar sobre trabalho. Especialmente quando o papo é sobre o que fica nas entrelinhas, aquilo que não se traduz em números.
Nossa conversa deixou sua vida de atleta para trás e passamos a falar sobre os detalhes da sua profissão: dar notas aos melhores surfistas do mundo segundo o ranking da ASP.
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O que eu sempre percebi no julgamento, pela forma como o sistema funciona, é que para ser um bom juiz você tem que estar sempre dentro das notas de corte. Ou seja, basta dar notas em uníssono com os outros quatro juízes para fazer um bom trabalho. Como você vê essa obrigação de estar sempre dentro do critério ?

Nem sempre o cara que está acertando as notas se destaca. As vezes o cara que dá uma nota diferente tem muita importância. Muitos dos novos juízes que entraram na ASP, como eu, se destacaram assim. As vezes, destoar do grupo tradicional e mostrar um conceito novo, um detalhe extra que passou desapercebido, é importante. O advento do replay foi o diferencial que tornou isso possível. Inclusive, a Abrasp começou a usar o replay antes que a ASP, nas etapas do Super Surf.
É claro que depois de formar um grupo de juízes que pensa parecido, estar sempre dentro do critério e batendo as notas é muito importante. Mas às vezes, trazer uma discussão por conta de uma nota destoada é importante. E se tiver um head judge com a cabeça aberta pra discutir isso, é mais importante ainda.

 

O advento do replay foi o diferencial que tornou isso possível. Inclusive, a Abrasp começou a usar o replay antes que a ASP, nas etapas do Super Surf

É que sempre rola essa discussão nos bastidores, de que estar dentro das notas de corte é o mais importante para ser um bom juiz...

Não sei se você já teve a oportunidade de julgar uma bateria, mas funciona assim: os juízes dão as notas e depois o head judge passa pra ver as notas de todo
mundo. Pra que a coisa não vire uma anarquia. Mas as vezes o juiz que está um pouco fora do corte é o que chama atenção e levanta uma discussão. Por isso é importante ter um head judge.

Falando na posição do head judge, tem gente que questiona a necessidade dele. O Kelly Slater, por exemplo, é um que já assumiu que pensa assim...

É mas assim, o Kelly Slater, na maioria das vezes que está fazendo um comentário, não é um bom juiz. Ele é o melhor surfista da história. Mas as vezes ele não tem a perspectiva de quem está analisando as notas o dia inteiro. As vezes ele até muda sua opinião inicial depois de ver um replay. Então acho que a função principal do head judge é manter o grupo pensando parecido dentro do padrão que ele quer para o surfe. Como um guia do esporte, direcionando a evolução.

 

o Kelly Slater, na maioria das vezes que está fazendo um comentário, não é um bom juiz. Ele é o melhor surfista da história. Mas as vezes ele não tem a perspectiva de quem está analisando as notas o dia inteiro

Mas também é perigoso delegar essa importância toda ao head judge e manter a mesma pessoa nesse cargo por muito tempo, né ?

Sim...

Lembro que na época do Perry Hatchett (antecessor do atual head judge do WCT, exonerado depois de dez anos) haviam reclamações...

É, realmente, no caso do Perry talvez ele tenha ficado tempo demais. Ele pode ter confundido as coisas, é muito poder, as vezes você pode se esquecer de como é estar sentado na cadeira de jurado dando notas. Só que o Perry foi muito importante, ele fez o surfe evoluir, mudou o critério, foi ele quem reduziu o somatório de 3 ondas para 2... Enfim, ele era um pouco rude no trato com as pessoas e talvez tenha se perdido um pouco nisso.

 

o Perry foi muito importante, ele fez o surfe evoluir, mudou o critério, foi ele quem reduziu o somatório de 3 ondas para 2... Enfim, ele era um pouco rude no trato com as pessoas e talvez tenha se perdido um pouco nisso

 

E como funciona a escolha de um head judge ?

É uma empresa né, então é uma sucessão. Na época que o Perry saiu, pegaram o head judge do circuito feminino, o Richie Porta.

Então não tem um tempo de mandato, o cara pode ficar lá por um período indeterminado...

Não tem um período máximo. Ele fica pelo tempo de contrato. Hoje em dia, com as mudanças na ASP, a decisão de uma mudança como essa passa pela mesa diretora. Com a criação do cargo de comissioner, ocupado pelo Kieren Perrow, acredito que esse é que vai ser o cara que participe mais ativamente de uma decisão como essa. Por exemplo, antigamente se o head judge quisesse parar um campeonato ele precisaria de três votos: o seu, do representante dos atletas e do diretor de provas. Hoje em dia se o comissioner quiser parar o campeonato ele pode passar por cima dos três. Ele provavelmente será uma das pessoas que vão ter uma influência grande em quem vai ser o próximo head judge. Mas o Kieren Perrow é um cara bem preparado para essa função, é inteligente, surfista. Mas ao mesmo tempo ele continua aprendendo, por ser o primeiro ano neste novo formato.

E qual a parte mais difícil do seu trabalho ?

Pra mim o mais crucial é exatamente parar um campeonato. Quando eu trabalho como head judge, a função mais difícil pra mim é parar ou recomeçar um campeonato. Parar um campeonato é a tua chamada, né.

Mais difícil do que dar a nota da virada, no final da bateria ?

Dar notas é diferente, é o teu feeling, você está embasado no que os outros juízes estão colocando, no critério. Mas decidir quando parar, ou não, um evento é muito difícil porque as vezes você queima uma bateria. As vezes, depois de decidir, penso que se eu pudesse voltar atrás não colocaria determinada bateria na água. É aquela coisa, estamos lidando com a natureza, não tem como prever o que vai acontecer, saber se vai entrar um vento e cagar tudo. No final das contas a responsa é tua, o head judge carrega muito peso nas costas.
E até falando das notas, na hora da virada, as vezes como head judge você acha que o cara não vira a bateria. E aí você vê cinco juízes dando a virada. Você mostra o replay, pergunta se todo mundo acha mesmo aquilo. Você dá a chance, mas não pode ir lá e baixar todas as notas de todo mundo.

E você acha que o sistema de julgamento atual é o mais justo ?

Por enquanto ele é o mais justo possível. A ISA já tentou colocar oito juízes, sem notas de corte e sem head judge. Houve um monte de reclamações e o padrão técnico foi muito baixo. Tinha notas digitadas, para a mesma onda, que iam de dois a oito. Tentaram trabalho voluntário, mas não havia o mesmo comprometimento. Não estavam recebendo um pagamento adequado pra função, então o pessoal estava cagando e andando. Usando juízes indicados por federações, por exemplo, pode haver parcialidade, julgamento em favor do país deles, da federação deles.

 

 

A ISA já tentou colocar oito juízes, sem notas de corte e sem head judge. Houve um monte de reclamações e o padrão técnico foi muito baixo. Tinha notas digitadas, para a mesma onda, que iam de dois a oito. Tentaram trabalho voluntário, mas não havia o mesmo comprometimento

 

Mas com um número menor de juízes a opinião de cada um tem um peso maior... Cada um tem seu background, seu país de origem, suas opiniões. Como você faz para se livrar disso ?

Eu venho do Brasil, a gente tem uma escola de julgamento e uma escola de surfe. Vamos supor que você seja um americano e tenha sua escola de julgamento e sua escola de surfe. As vezes, se eu vejo um brasileiro surfando a onda, eu não vou ver a quantidade de defeitos que você viu. Porque eu estou acostumado com aquele tipo de approach, eu vou analisar a onda de um jeito. Um juiz americano talvez veja mais defeitos e a tendência é penalizar. Ou vice-versa.
As vezes, por eu conhecer tal surfista, eu sei o que ele pode oferecer. E não vou recompensá-lo tanto quanto outro cara que não o conhece e se impressionou. Então isso varia muito, dentro do que cada um entende. Claro que isso está dentro de um critério, de um padrão. Quem não tem muita experiência tende a penalizar, por não querer mostrar que é o juiz mais baixo. Isso acontece com juiz brasileiro: quando sai uma nota de atleta brasileiro ele dá a nota mais baixa. Isso com o tempo você vai neutralizando, só a experiência vai te dar essa capacidade.

Hoje você acha que consegue neutralizar isso ?

Ah, hoje eu sento ali e vejo dois surfistas dentro de 30 minutos e isso não passa mais pela minha cabeça. Mesmo em baterias super apertadas.

Qual foi a situação mais difícil ?

Acho que foi a final do Taj Burrow com o Adriano de Souza, na Gold Coast. Foi o Taj que ganhou e eu tive o Adriano ganhando, entende? Fui o único que deu a virada na última onda. Mas ao mesmo tempo eu tive notas super altas para o Taj na sua melhor onda da bateria. Mas, na minha visão, naquele momento, nas duas ondas da bateria, eu achei que ele merecia a virada.

E se naquele momento era exatamente isso que você achava, você não se deixou influenciar?

É o que eu acho. O head judge viu, repetiu a onda (replay), e também achava que era muito próximo. Achava que poderia ser ou também poderia não ser.

E o head judge, em momentos assim, pode mexer na nota?

Ele não vai falar “troca de nota”. Ele deixa livre. Ele vai passar e falar, olha, a
média é ‘x’, vamos rever isso porque o cara precisa de ‘y’.

Então os juízes sabem quanto o cara precisa pra virar...

É decisão. A galera sabe, entende. Mostram a nota e fica na mão do juiz.
Então quando demora pra sair a nota é porque vocês estão decidindo se é pra dar a virada ou não dar?
Está sendo feita uma revisão. Ele (o head judge) as vezes mostra as quatro melhores ondas (duas melhores de cada atleta, supondo que é uma bateria homem-a- homem) da bateria pra fazer uma comparação. O principal trabalho da gente é chegar no resultado certo. As vezes isso custa um pouco na escala de notas. Mas o objetivo é o resultado certo.

O que vale mais então, é quem realmente ganhou a bateria...

Sim, o objetivo é chegar no resultado certo. A gente tenta manter a escala de notas correta durante o dia e também dentro das baterias. Mas o principal trabalho é chegar no resultado correto. As vezes o cara precisa de um seis pra virar e está ali, pode virar ou pode não virar. Talvez essa onda seja melhor que um cinco e meio, mas as vezes revendo as ondas, você não dá a virada porque alguma outra nota poderia ser diferente. Então nesses momentos a justiça tem que ser feita. As vezes você crucifica uma nota.
As vezes não é nota-a-nota, tem que focar no resultado. As vezes o cara precisa de um cinco e meio mas você olha o oito que saiu antes e poderia ter saído um ponto a menos ou um ponto a mais. É muito importante ver esse negócio da primeira onda em relação a última. Inicialmente você tenta manter a escala de notas perfeita. Mas nesses momentos de virada é feita essa decisão. Principalmente nas baterias homem-a- homem.
Pode parecer mais fácil, mas nas baterias do WCT, quanto mais vai afunilando mais situações dessas vão acontecendo. E cada vez mais a decisão fica na mão do juiz. Compara-se uma onda com a outra e as vezes até as quatro ondas do somatório. Na maioria das decisões é assim.

As vezes não é nota-a-nota, tem que focar no resultado. As vezes o cara precisa de um cinco e meio mas você olha o oito que saiu antes e poderia ter saído um ponto a menos ou um ponto a mais. É muito importante ver esse negócio da primeira onda em relação a última

 

E sobre o critério de julgamento, existe aquele papo entre os brasileiros: quando aprendemos a jogar o jogo, mudam as regras. Rolou aquela polêmica aéreos x power surfing, principalmente chegou Jadson, Medina...

Acho que foi um pouco antes até, quando o Dane Reynolds e o Jordy Smith entrando no circuito. Eles fizeram uma campanha monstruosa no WQS e ali começou essa mudança no critério. Acho que o Medina pegou uma fase de transição. Antes disso, o Jadson começou a dar um tipo de aéreo e todo mundo passou a padronizar esse aéreo, todo mundo estava fazendo-o (aéreo rodando na junção). E aí as coisas começaram a tomar um caminho meio estranho. Alguns cara estavam dando três, quatro porradas na onda e estavam perdendo para caras que passavam a onda toda para dar um aéreo na junção. Houve uma reflexão, mas não foi baseada em um brasileiro ou pessoa ‘x’ ou ‘y’. Acho que foi natural.
E como eu estava falando no caso do Dane e do Jordy, eles entraram no tour e ficou reservado um espaço na escala para aquele surfe, porque eles estavam fazendo algo tecnicamente superior ao que estava sendo mostrado no WCT. Acho que o aéreo já foi novidade, mas caiu em um campo comum onde todo mundo passou a fazê-lo. Apareceram caras que não tinham um surfe completo mas sabiam dar altos aéreos. Se o lugar desses caras é estar no WCT, eles tem que mostrar um fundamento próprio para estar lá. O aéreo tinha que ser premiado, mas o surfe tem que mostrar todas as características. É possível tirar até dez em uma manobra, desde que ela seja monstruosa. Ao mesmo tempo tem aéreo de 3, 3.5 e 4... O power surfing, como fundamento, nunca deveria ter saído de moda. O que ficou bem latente a partir do ano passado é que seja um aéreo ou manobrão, vai sair nota.

 

no caso do Dane e do Jordy, eles entraram no tour e ficou reservado um espaço na escala para aquele surfe, porque eles estavam fazendo algo tecnicamente superior ao que estava sendo mostrado no WCT

 

Um rasgadão, na parte crítica da onda, pode chegar no nível de um aéreo gigante, como o do Julian Wilson em Portugal (2013) ?

Pode ganhar um high score. Depende do grau de dificuldade. Tudo é muito relativo a condição das ondas no dia. Seja uma rasgada em uma sessão pesada que naquele dia esteja difícil de encaixar ou um aéreo em uma condição difícil. Tem dias que não é fácil dar aéreos, como mostrou o Medina em Imbituba no Prime (em 2011). Não tinha quase ninguém encostando no lip, de repente ele começou a voar quase dois metros acima do lip. Tipo, não tinha mais escala pra dar nota pra ele (risos). Nesse sentido, eu acho que existe a adaptação do critério conforme a condição que se apresenta. Tem dia que o aéreo vai pontuar mais, como tem dias que o surfe dentro da onda vai pontuar mais. A gente não quer restringir o que vale mais ou menos. Mesmo dentro da competição, com todo esse critério, tentando dissecar em números, o surfe tem que ser livre. No final das contas, é uma forma de expressão, ninguém surfa igual, tem que ser o mais variado possível.

Mesmo dentro do critério você acha que tem espaço para expressão ?

Eu acho que tem. Que nem a gente falou do rasgadão e do aéreo, dependendo do que for no momento, a rasgada vai ganhar mais que o aéreo. Apesar do aéreo ser mais difícil pra mim, pode ser que, pra quem esteja fazendo o rasgadão, isso seja mais difícil. É tudo muito relativo. Tem que estar sempre com uma balança pensando em cada momento.
Acho que o aéreo foi valorizado e agora está chegando em um ponto comum com o surfe dentro da onda. Agora está bem em cima da característica do dia essa relação entre aéreo e power surfing. Pra mim, o surfe dentro da onda vai ser sempre a verdade. Porque quanto mais o mar sobe, mais fica difícil e você vê menos aéreos. E o que a gente quer ver é condição de onda com tamanho.

E em relação a qualidade e tipos de ondas, você acha que o circuito é completo ?

Eu acho que é bem completo. Poderia ter alguma coisa a mais, mas eu acho que o pessoal surfa quase todos os tipos de onda.

E ondas gigantes, como em Fiji em 2012, por exemplo. Você acha que deveria ter rolado ?

É, rolou né. O Raoni competiu, se machucou...
Sim, mas subiu ainda mais e ficou perfeito. Tinha um monte de gente entubando e pegando aquelas bombas...
É, o pessoal não estava preparado (referindo-se aos atletas do WCT).
Mas o John John por exemplo se destacou no free surf...
(Longa pausa) É, o head judge queria rolar, entende. Mas os atletas e o diretor de prova pararam. A gente estava no palanque (juízes). Fizemos duas baterias e ficamos esperando recomeçar. Mas não recomeçou. O ideal seria que tivesse, mas ninguém estava preparado com prancha etc. Nem emocionalmente preparado para aquela condição. Eu acho que cabe, mas desde que esteja programado pra isso.

Você acha que um evento de ondas grandes, como o Eddie Aikau Invitational, deveria entrar no circuito?

Eu acho que é outro jogo. São outros jogadores. Até o circuito que classifica (WQS) não te leva a esse nível. É quase outro esporte. Os caras que vão se destacar em condições assim, em sua maioria, não vão se destacar no WQS, por exemplo.

Mas quando fica gigante como no campeonato de Fiji, você acha que deveria rolar? Porque quando fica quase flat, rola. Em certos lugares, além da possibilidade de não ter onda, existe a possibilidade de ter 20 pés...

Eu acho que a tendência é, se acontecer de novo como aconteceu em Fiji, é rolar o campeonato. Eu acho que rola. Só que aquele dia, na TV parece fácil, mas... (risos). O John John e o Hobgood estavam lá, de 7’6” sei lá, pegando onda com as pranchas deles, mas a maioria dos outros competidores... enfim.
Eu acho que já rola onda grande pra caralho, é um desafio fudido surfar Pipe grande, Teahupoo grande. Fiji quando o Kelly ganhou ano passado estava grande. Acho que até para o espetáculo e para as habilidades de quem está hoje no circuito, acho que ainda não cabe maior do que isso não.

Você acha que o campeão mundial é o melhor surfista do mundo?

(Longa pausa) Não, não necessariamente. Eu acho que o maior campeão mundial é o melhor surfista do mundo. Mas anualmente nem sempre o melhor do mundo é o campeão mundial. Eu acho que o maior campeão da história, que é o Kelly, reflete quem é o melhor surfista da história. Acho que isso mostra uma coerência no surfe da competição. Muita gente questiona, mas acho que isso é um fato que valida muito o surfe competitivo. O fato do Kelly Slater ser o melhor do mundo, e isso é uma coisa muito nítida, transforma-se em resultado. Acho que poucos esportes refletem essa supremacia. Ninguém contesta que ele seja o melhor, então isso valida
todo o trabalho e todo o julgamento que foi feito todos esses anos. Acho que isso deixa o lance todo legitimo.
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A conversa ainda foi além. Mas o tempo não permitiu que continuássemos falando só de surfe. Na cozinha o café já estava frio e a fome bateu. Além disso nossas respectivas namoradas já mostravam claros sinais de impaciência, sentadas no sofá da sala.
Mais tarde, longe do meu gravador, Luli deixou escapar sua opinião sobre um possível título mundial de um surfista brasileiro. Não falava como juiz, dava pitaco como surfista. E eu arrisco dizer que, como a maioria de nós, pareceu otimista.

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