AGUARDE
14 junho 2017

Mallu Magalhães estabelece nobre conexão com a música em seu quarto álbum.

Há momentos na carreira de um artista em que ele consegue sintetizar todo o potencial de sua obra e realiza um registro único e definitivo. Com longas jornadas acontece mais de uma vez. Rita Lee fez “Fruto Proibido”em 1975, “Rita Lee”em 1980, “Balacobaco”em 2003. Gal fez “Fa-Tal”em 1971, “Fantasia”em 1981, “Plural”em 1990 e “Estratosférica” em 2015. Elis fez “Falso Brilhante”em 1976, “Transversal do Tempo”em 1978 e “Essa Mulher”em 1979. Fiz essa imensa introdução para concluir que, na minha opinião, amalgamada em anos de escuta e execução de milhares de títulos de canções brasileiras, Mallu Magalhães lançou o disco da sua vida.

Até a semana passada eu não tinha tido contato com a obra da paulista agora radicada em Portugal. Sabia, através da redes sociais, de seu casamento, de seu filho, de algumas polêmicas e devo ter escutado alguma coisa, mas que definitivamente não chamou a atenção do meu calejado ouvido, normalmente atento a outras sonoridades. Mas ao me deparar com o suingue do naipe de metais da canção “Você não presta”resolvi dar o benefício da dúvida.

 

 

Aí a moça disponibilizou o disco nas plataformas de streaming e eu ouvi. Inteiro. Sem parar. Até hoje. Geralmente uma música me captura pela sequência de acordes alocadas naquela disposição. A letra me é percebida num segundo momento. No caso desse disco de Mallu, intitulado “Vem”, tudo que diz respeito à música está registrado no mais alto padrão de execução. Um dos casos em que não existe nenhuma ressalva com relação ao conteúdo. Todas as faixas são incríveis, com arranjos sensacionais e músicos excelentes. Destaque para os arranjos de metais capitaneados pelo não menos incrível Mario Adnet e o produtor do disco Marcelo Camelo, que mais que preencher, as vezes contrapõem o vocal de Mallu, com linhas geniais em contratempo com a melodia. Surpreendentes. A guitarra, brilhantemente executada e mixada mais alta do que os padrões habituais, reina absoluta dividindo as intenções dos vocais de Mallu. Em “Culpa do amor”, “Pelo telefone”, “Guanabara”(lindo slide guitar), “Gigi', “Love You”, a guitarra se impõe mas não briga com a suave emissão de Mallu.

 

Como comentei antes, a música me pega primeiro que a letra, mas ao me deparar com as histórias encontrei crônicas incríveis, que habitam os universos de casais (da faixa 2 a faixa 6 em sequência e a pungente “Love You"), as impressões das cidades (“Guanabara”, “São Paulo”e “Linha Verde”) e uma sensível homenagem a sua progenitora (“Gigi”).

Parece que eu tô exagerando, que eu tô babando o ovo de Mallu e pior, que eu tô promovendo um post patrocinado ? Desculpe, mas acho tão bacana e tão raro um artista encontrar uma forma de se comunicar que seja compatível com tanta referência nobre (Tom Jobim, Edu Lobo, Caymmi, Baden, Ary) e ao mesmo tempo alcance pessoas que não tem a menor noção de nada disso mas que podem a partir desse contato, ampliar sua percepção.

Parabéns Mallu. Não te conheço mas te considero pra caramba. Seu trabalho é irretocável e realmente não acredito que quem teve a possibilidade de realizar um disco dessa magnitude contribua para disseminar qualquer sentimento que não seja nobre em sua arte. Você ganhou um fã. E o mundo ganhou um disco incrível.

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