AGUARDE
05 maio 2016

Marisa Monte lança "Coleção" e reitera a grandeza de seu ofício

Por Marcelo Aragão

Quando Marisa Monte surgiu no cenário musical, lá pela década de 1988, fui um dos que ficou impactado com todo o conjunto: A voz, a presença, a proposta, o invólucro, enfim, naquele momento não tínhamos nenhuma referência que estivesse a altura do que foi apresentado pela morena carioca de voz estudada e repertório milimetricamente calculado para agradar gregos, troianos, adultos, adolescentes e quem não sofria de algum tipo de deficiência auditiva. Até a Maria Callas Marisa foi comparada e a gente achava que tinha tudo a ver, estávamos realmente hipnotizados por aquela figura e aquela voz incrível.

Quase trinta anos se passaram e Marisa nunca deixou de impor suas escolhas e deixar claro que no seu jogo, a bola e as regras eram suas. Os discos, as turnês, os registros em vídeo, tudo passava por seu crivo e seguia o roteiro que ela bolava e a gente continuou achando incrível. Numa época em que cada vez mais a música era uma consequência da exposição excessiva e das regras rígidas do mercado fonográfico, Marisa fez o que quis e a gente ficava só na platéia aplaudindo e achando o máximo alguém conseguir se manter pertinente, interessante, sem macular seu trabalho com entornos e concessões. Enfim, a portelense estabeleceu novos patamares para o canto, para o gerenciamento de carreira e também para o comportamento do artista que tem com objetivo principal a música e não camarotes de sambódromo e/ou capas de revistas de celebridades. A carreira de Marisa se tornou referência em todos os aspectos, inclusive no que diz respeito a propriedade de suas músicas, que nunca puderam gerar compilações caça níquies, tão comuns nos catálagos das gravadoras.

Até que em 2016, a bela morena lança uma coletânea, "Coleção". O que todo mundo pensou? Finalmente teremos um best off, com as músicas que a gente queria ouvir juntas, na sequência, os hits todo juntos, né não? Pode voltar duas casas e ficar duas rodadas sem jogar. Marisa resolveu compilar gravações que fez ao longa da vitoriosa carreira, mas que nunca constaram em seus álbuns regulares, basicamente participações em trabalhos de outros artistas ou mesmo convites para projetos especiais. A internet chiou, Marisa fez um comunicado em sua página no Facebook, muito polida mas que tinha como subtítulo: “Não sou obrigada”.

Mas esse post é pra falar sobre o referido disco e concordar que ele é totalmente coerente com tudo que foi construído por ela nessas quase três décadas de ofício. Seu canto preciso e límpido está lá, suas escolhas, seus parceiros e suas idéias. Destaco a belíssima “Alta Noite”, no registro que fez parte do primeiro disco solo de Arnaldo Antunes, “Nomes”, de 1993. A faixa foi remixada e ficaram só o piano mágico de João Donato e as vozes de Marisa e Arnaldo. O single que promove o disco é “Nu com a minha música”, canção autobiográfica de Caetano Veloso, que conta com a adesão do Hermano Rodrigo Amarante e do hypado Devendra Banhart. Um arranjo pungente, pra uma canção que pede exatamente isso. Você que é fã do trabalho da mãe da Helena e do Mano Wladimir não irá se decepcionar. Se esteve em outro sistema solar nos últimos anos e não conhece o trabalho de Marisa Monte, “Coleção” pode te dar uma bela mostra do quanto é difícil, mas possível, ser fiel a seus princípios e mesmo assim ter relevância e reconhecimento.

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