AGUARDE
28 outubro 2014

Matt Warshaw

“É melhor o resto do mundo do surfe começar a aprender português”

Quando e onde começou a surfar? Como era a Califórnia naquela época? Comecei a surfar em Venice Beach e em Santa Monica, em 1969, quando tinha nove anos. Comecei com o bodysurfing uns anos antes, talvez em 1967. Como era a Califórnia naquela época? Era incrível na minha pequena área! Uma praia enorme pra brincar, andar de skate quando o surfe estava ruim, e com os pais longe e ocupados, fazendo suas coisas. Adorei. Você foi surfista profissional no final da década de 70 e no início dos anos 80, em seguida editor da Surfer Magazine, e, depois de se formar em História pela Universidade de Berkeley, em 1992, começou a escrever livros. Como é que tudo isso aconteceu? Não era um grande surfista profissional. Era de segunda categoria. Aos 22 anos sabia que não iria chegar muito longe como profissional e por isso comecei escrevendo. Arrumei um emprego num jornal de surfe local, em seguida fiz meu caminho até chegar na Surfer. Não era muito talentoso, mas era muito determinado! E, o mais importante, podia surfar o tempo inteiro. Essa foi sempre a questão-chave. Quando completei 30 anos cheguei à conclusão que me tinha colocado numa caixa por nunca pensar além do surfe, e isso me fez abandonar a Surfer e voltar para a faculdade, onde estudei História. Eu adorava a Universidade de Berkeley e adorava estar na Bay Area (São Francisco e Oakland). Pensei continuar a minha formação acadêmica – e até o tentei por mais algum tempo –, mas não me adaptei e voltei para a escrita de surfe, embora tenha permanecido na Bay Area. Na altura a minha escrita tinha melhorado o suficiente para ser capaz de conseguir um agente e receber propostas para escrever livros. Depois de terminar o History of Surfing (2010) decidi parar de escrever livros e me dedicar à Encyclopedia of Surfing online. Esse projeto acabou entrando por um caminho bem mais longo do que eu inicialmente imaginei. O site se estreou online no ano passado e trabalhar nele tem sido de longe a parte mais gratificante da minha carreira. Que lições valiosas aprendeu com a sua experiência como jornalista de surfe? E que tipo de conselhos daria aos jovens e aos aspirantes a jornalistas?Procurem pela inspiração fora do mundo do surfe. Cerca de 99,5% do material bom anda sendo feito por pessoas que nunca puseram os pés em cima de uma prancha. Leiam a New Yorker. Ouçam música country. Conversem com pessoas mais velhas. Leiam a New Yorker. Ouçam música country. Conversem com pessoas mais velhas Como surgiu a idéia de criar a Encyclopedia of Surfing? Você sempre planejou tornar o livro num site? Um ano ou dois depois de o livro ter sido publicado (2003) registei o domínio www.encyclopediaofsurfing.com. Durante uns tempos não fiz nada com ele, pensando que talvez um dia viesse a criar uma versão online. Em 2010 todas as peças se encontravam no devido lugar, no que dizia respeito ao meu tempo e à tecnologia, e por isso me joguei. Uma vez que você entende mais sobre a história do surfe que a maioria das pessoas, e que Gabriel Medina foi recentemente criticado por causa do claim que fez à Cristo Redentor durante Teahupoo, embora tenha ganho o campeonato, será que nos pode contar a breve história desse gesto? Quem inventou o claim e quais foram os mais engraçados ou estranhos desde então? O pioneiro das ondas grandes Greg Noll foi talvez o primeiro cara a fazer muitos claims, por isso tendo a lhe dar esse crédito. Chegava louco ao fim de uma onda em Waimea ou Pipeline e fazia um movimento com a mão direita, como se estivesse estalando um chicote. É um grande claim. O Gabe devia imitá-lo! Será Medina o próximo Kelly? Acha que ele é assim tão bom? E quem vai ganhar o título esse ano? O Gabe vai ganhar o título e é bem merecido. É emocionante de ver, tem uma excelente cabeça para a competição e quer alcançar isso mais do que qualquer um. Também foi bastante criticado no passado, por isso parece-me bem que esmague todo mundo em 2014. Dou-lhe os meus parabéns e é melhor o resto do mundo do surfe começar a aprender português. O Gabe vai ganhar o título e é bem merecido. É emocionante de ver, tem uma excelente cabeça para a competição e quer alcançar isso mais do que qualquer um Em 1996, Tom Curren disse-lhe numa entrevista que o surfe profissional era um contrato de três alianças entre as empresas, os surfistas profissionais e as revistas. Dezoito anos depois ainda estamos no mesmo lugar. Concorda? Concordo. Há muito a objetar sobre surfe profissional para um purista do surfe. Por outro lado, de tempos a tempos, o surfe profissional fornece ao mundo do surfe alguns momentos surpreendentes. Teahupoo foi o mais recente. É só escolher. Agora sobre o surfe feminino... Está na hora de tirar o surfe competitivo das mulheres para o próximo nível, disse Paul Speaker quando a ZoSea assumiu o comando da ASP. No ano passado, durante o Roxy Pro em Biarritz, entrevistei algumas surfistas e todas diziam o mesmo... Na sua opinião, o que mudou desde então? Estará a estratégia da ZoSea no caminho certo? Há que interpretar cuidadosamente o que as surfistas profissionais dizem. Elas fazem muito menos dinheiro que os homens e têm menos oportunidades, por isso a maioria se alinha com o que o ASP diz. É uma pena. Penso que o circuito das mulheres devia ser separado do dos homens, apenas porque os eventos devem ser menores e mais simples. Um campeonato combinado de homens e mulheres só torna o evento interminável. O ângulo do “sexo vende” no surfe feminino é vergonhoso, mas previsível: é assim que funciona em todos os outros esportes. Seria bom que o surfe fizesse algo diferente e melhor, mas nunca foi o caso. Estamos dentro da média na organização e apresentação do esporte. Abaixo da média, pra falar a verdade. De qualquer jeito, me dá um prazer imenso ver as surfistas, para quem ser sexy é o mais importante, perderem de primeira contra as que querem acima de tudo ser boas profissionais. Vai Tyler e Dimity! E o que tem a dizer sobre os homens? Período chato no surfe dos homens atualmente, à exceção de estarmos prestes a ter um campeão mundial brasileiro, o que é fantástico. O ângulo do “sexo vende” no surfe feminino é vergonhoso, mas previsível: é assim que funciona em todos os outros esportes. Seria bom que o surfe fizesse algo diferente e melhor, mas nunca foi o caso Jay Adams, que morreu recentemente, foi seu amigo de infância. Como recorda aqueles tempos? Pura liberdade de infância. Venice Beach de 1968 a 1972. O surfe e o skate como os meus primeiros amores. O meu amigo louco, Jay, me empurrando pra fazer tantas coisas, boas e más, que eu nunca teria feito sozinho... Li que quando ele se tornou um skater famoso vocês seguiram caminhos diferentes. Porquê? Ele deixou de morar em Venice em 72, acho eu. Também me mudei em 73. Mantivemos contato por algum tempo, mas percorremos os nossos caminhos separados. Ele era um selvagem, eu era um rato de biblioteca. Foi uma sorte termos tido aqueles anos durante os quais partilhámos alguns pontos em comum. Há uns anos vocês voltaram a falar através do Facebook. Como foi o primeiro reencontro dos dois cara-a-cara? Foi muito estranho! A única coisa que tínhamos em comum era o tempo que partilhámos em crianças. Mas como esse período foi tão rico, isso foi o suficiente. Nunca iríamos voltar a ser bons amigos de novo, mas foi fantástico vê-lo e conversar sobre os velhos tempos. O Jay era uma das quatro ou cinco pessoas no mundo que entendiam perfeitamente a minha experiência durante esse tempo. Parte da minha infância morreu com ele.

Tags:
COMPARTILHAR