AGUARDE
16 outubro 2015

O começo é o fim. Gabriel Medina e a França

Por Triguilli Newton


Fim de tarde de 15 de outubro de 2015
Canal de Hossegor, França

A água parece fria. A temperatura e a cor, verde escuro, sugerem arrepios. Depois de parar o carro na vaga mais próxima da ponte, um animado grupo corre para escolher a área do pulo. Charles Saldanha, pai - não é quem cria? - do maior fenômeno da história do surfe brasileiro, supersticioso convicto e cumpridor de todas suas promessas, enfrenta mais uma. Pela vitória do filho na nona, de onze etapas, do circuito da elite da WSL, a primeira depois do tão festejado título mundial de 2014, “Charlão” prometeu pular dali. Depois de confirmar que a maré estava cheia suficiente pra dar segurança a brincadeira, ele se manifesta para o smartphone do garoto. “Tá frio demais, mas promessa é promessa”. Ele dá dois passos para trás e parte para o salto acelerado. Tchbummm!!! Feito. Em poucos minutos a imagem vai gerar milhares de likes no Insta.

Meia hora antes
Les Culs Nuls, Seignosse, França
Final #10 etapa do CT 2015

“Eu não te disse, que ia ganhar isso aqui? Agora você vai ter que pular da ponte, hahaha!!! - Gabriel Medina brinca e cobra a promessa a Charlão no encontro na escada do palanque, que leva ao pódio do campeão em Hossegor. O garoto acaba de sair da água, depois de um exibição de superioridade, que fez o robótico Bede Durbidge parecer um competidor de categoria inferior. A segunda melhor nota do herói de Maresias, um 8.5, sozinha, iguala o somatório do aussie de North Stradbroke Island. Todos na praia só tem olhos para Medina.

40 minutos antes
Mesma praia
Semi-final # 2

“Ele pegou o bilhete premiado! Esse foi o melhor tubo do dia! - gritou o locutor de praia francês, num inglês que dói os ouvidos. Depois de passar a primeira metade bateria de semi contra o ex-lider do ranking e um dos melhores competidores dos últimos tempos, Adriano de Souza, aparentemente perdido, Medina se joga numa direita pesada, que parece intransponível. Segurando a mão esquerda na borda de fora da prancha e com a direita cortando a onda para ficar mais tempo lá dentro, ele acelera na medida certa e perfura o caroço, para delírio da praia. Nem precisa, mas ele dá mais três sapatas de backside na onda, para os juízes não terem dúvidas. Isso é um 10! Gritou o francês.

4 dias antes
Mesma praia
Bateria # 4 Fase 4

No confronto contra Medina dois de seus companheiros de equipe e goofy footers como ele, os australianos Owen Wright e Matt Wilkinson lutam pelo segundo lugar. A disputa de Gabriel é contra ele mesmo. Em sua segunda onda, uma direita de um metro, verde esmeralda, refletindo o céu de tão lisa, depois dar uma manobra de ajuste de base, o garoto decola num aéreo muito alto de backside, de rotação completa, pousa na base da onda e encara a platéia e os juízes com as mãos na cintura. “Onde estou?! “ - perguntou um atônito ancora da WSL, Ronnie Blakey. “ Nenhuma gota fora do lugar. Nenhum ajuste.” - completou o colega de Blakey e ex-top do Tour, Ross Williams. Para os que curtem matemática, o fenômeno fez 19,83 de 20 possíveis no somatório.

Owen teve que bater palmas para o brasileiro

Dois anos antes
04 de outubro de 2013
Le Penon, Seignosse, França - 5 minutos de caminhada de onde nossa história começa
Final etapa # 8 WCT

Parecem dois surfistas de gerações diferentes. E são mesmo. Isso é comum no circuito mundial. O embate de grupos etários distintos faz a bola girar. Ou seria faz as pranchas voarem? No duelo entre Fanning e Medina, as armas de cada um estão muito claras. O então bi-campeão do mundo sabe onde está pisando. Tem diante de si, um garoto ultra talentoso, que a cada oportunidade decola sem pensar, gira e faz tudo de novo, com rara facilidade. A única coisa que o mais preciso cirurgião do surfe de borda pode fazer é acentuar o máximo seus movimentos, sempre limitado a face das ondas, nunca acima. Mas ele faz isso como ninguém, vence a bateria, iguala o número de vitórias em Hossegor de seu saudoso amigo Andy Irons, com quatro troféus e segue para as duas últimas etapas do Tour de olho no tri-campeonato mundial, feito que ele conquista, empatando com Irons mais uma vez. Placar MF 16.66 X GM 15. No pódio, tendo Gabriel no segundo degrau mais alto e o moleque de apenas 18 anos, mais um mago dos aéreos do Brasil, Filipe Toledo, sozinho no terceiro, pois o número um do planeta em 2012 e grande amigo de Fanning, Joel Parkinson que também acabou em terceiro, partiu para o aeroporto mais cedo, (Santo Netuno! Quantas virgulas! O ícone da Gold Coast tem plena consciência de que sua geração será destronada em breve. ( 3 anos?) Seu discurso após o momento da champanhe deixa isso claro. " Esses garotos são monstros!" O tempo não perdoa os homens. - Só o Slater

Mick levou a melhor em 2013

4 anos antes
12 de outubro de 2011
La Graviere, Hossegor França
Tradicional pico com fundo de areia, da mesma região dos outros citados
Final # 8 WCT

“ A revolução brasileira está a caminho e não vai poupar ninguém!!! “ - Gritou João, um carioca morador da vizinha Biarritz, que luta sem êxito para sua porção torcedor, não atrapalhar sua oportunidade como comentarista. Em sua segunda etapa como top 34 da ASP, Gabriel Medina vence de forma categórica uma final emocionante contra Julian Wilson, a grande aposta da Austrália para continuar dominando o universo do surfe competição. Com os chamados “combos”, sequências de manobras diferentes, que no livro de regras seguido pelos juízes, sempre renderam boas notas e ainda melhores quando assinadas com uma decolagem, Gabriel chega a 17 de pontos e deixa Wilson, também um talentoso adepto do arsenal contemporâneo, com 16.10. A chegada ao circo da elite do menino de 17 anos, é comparada ao do mito Slater. Para quem acha isso um exagero, vale deixar registrado que entre os melhores do mundo, o yankee sentiu essa emoção pela primeira vez aos 20 anos.

6 anos antes
27 de setembro de 2009
Les Bourdaines, Hossegor
Mais um banco de areia que confirma o potencial das vizinhas Hossegor e Seignosse
Final KOTG Mundial sub 16

“Se esse garoto, mesmo com 15 anos, estivesse competindo contra as estrelas do WCT, ele faria um grande estrago e terminaria no topo.” - Cravou Martin Potter ( campeão mundial de 1989 e comentarista da ASP - hoje WSL ) durante a transmissão pela internet do mundial sub 16, que rolou paralelamente ao WCT de França em 2009. Gabriel Medina fez por merecer as palavras. Ele simplesmente marcou 20 pontos, de 20 possíveis na final contra seu compatriota e também paulista Caio Ibelli. Para chegar ao somatório perfeito, o garoto desfilou um impressionante repertório de aéreos, com direito a Super Man gigante. O mundo ainda não sabia, mas aquele era o cartão de visitas de um novo fenômeno do esporte.

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