AGUARDE
06 agosto 2015

O tubarão, o surfista e o pescador

Por Triguilli Newton

A forma de ver o mundo determina quem somos. Para um caçador submarino, o tubarão é apenas mais um animal dos tantos que habitam os mares. Já para o surfista, ele é terror na água, uma criatura que perturba o imaginário mesmo quando estamos em terra firme. Isso não quer dizer que o caçador seja um símbolo de coragem e o surfista um covarde assumido. A questão é como enxergamos o tema.

O susto de Mick Fanning

Jeffrey’s Bay. África do Sul. Domingo, 19 de julho de 2015. Dia de sol, praia cheia e todas as atenções voltadas para o mar. Num dos “line ups” mais celebrados do universo do surfe estão Julian Wilson e Mick Fanning. Duas estrelas australianas de vivências e currículos diferentes. O primeiro foi campeão de longboard, e antes de enveredar pelos campeonatos de pranchinha só queria saber de ondas perfeitas e liberdade. Já o segundo, cresceu entre o futebol e o atletismo, mas escolheu o surfe, se transformou numa máquina de vencer baterias e já tem 3 títulos mundiais na conta. Na temporada em curso, enquanto Wilson participa da terceira final, ainda sonhando com a primeira vitória, Fanning já tem a réplica do sino de Bell’s, como símbolo de sua conquista na prova mais tradicional do roteiro.

Julian Wilson, de camisa vermelha, começou a brilhar no surfe de longboard

Tudo parece calmo, e passados pouco mais de 5 minutos do início do confronto final da sexta parada do cultuado Championship Tour da Liga Mundial de surfe, apenas Julian Wilson tem uma onda no somatório, que valeu um medíocre 6,67. De repente, enquanto aguarda para estrear na bateria, o tricampeão do mundo é surpreendido por um tubarão branco com cerca de três metros. O animal parece atacar o surfista, que incrédulo, age por reflexo, se desvencilha do bicho e rema pela sobrevivência. Foram os 10 segundos mais longos da história do esporte.

As aparências enganam

Enquanto o mundo todo, via internet, assiste a ocorrência pensando no pior, na areia da Baia de Jeffrey, tem inicio uma conversa tensa. De um lado está Dylan, 18 anos, surfista de Port Elisabeth, que visita o lugar com frequência, mas evita entrar na água sozinho para não aumentar a porcentagem de chance de ser o escolhido para um ataque. Do outro está Michael, um caçador submarino de Cape Town, com muitas histórias de encontros com tubarões para contar. “ Meu Deus!!! O Mick está sendo atacado. Acho que é um tubarão branco.” - Gritou Dylan. “ Calma, eu ainda não vi sangue na água. Então acho que não foi um ataque.” - Sentenciou Michael num tom bem mais tranquilo.
“ Como não foi um ataque?! Ele partiu pra cima do cara, derrubou ele da prancha e depois deu na cara dele.” - Dylan rebate ainda mais nervoso. “ É sério garoto. Se um tubarão desse tamanho quisesse ataca-lo, o cara não teria chance alguma de sobreviver. Isso deve ter sido apenas um encontro casual. Infeliz, assustador, mas casual. Eu sei que para vocês surfistas esses bichos causam pânico, mas ele são os verdadeiros “locais” de todos os picos. Vocês surfistas e nós caçadores submarinos invadimos o habitat deles apenas para nos divertir . e as vezes os encontros acontecem. O negócio é fazer como fazemos com os cachorros, não demostrar medo, nem fazer gestos bruscos.” - Concluiu Michael, com autoridade.” Você esta de brincadeira. Tubarão igual a cachorro?! Só se for um Pit Bull raivoso. Você por acaso já bateu de frente com algum desses? “ - Provocou Dylan.

Tubarão peludo de quatro patas

“ Já perdi a conta. Esse é o meu mundo. Já tive vários encontros com eles e nunca aconteceu nada. Tudo é uma questão de postura, confiança, respeito. Eu sei que para vocês é mais complicado, pois vocês não têm a visão completa da coisa, porque estão sempre na superfície, enquanto nós lá em baixo, se a água estiver clara, conseguimos enxergar longe. Pode ter certeza que isso não foi um ataque, se não o cara não estaria mais aqui para contar a história” - Enquanto termina de falar, Michael caminha para o aglomerado de gente perto da beira. Todos esperam os jet skis e o barco de resgate trazerem Wilson e Fanning para terra firme. Enquanto assiste o caçador submarino se afastar, Dylan resmunga. ” Isso deve ser história de pescador. Esse tiozinho deve estar de brincadeira. Eu é que não caio mais por aqui.” Já refletindo com seus botões, Dylan sentencia: Acho que vou trocar o surfe pelo skate. Prefiro ralar o braço no asfalto, do que perder ele na boca de um bicho como esse.”

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