AGUARDE
28 março 2017

Os Ecos da Gold Coast

Épico à Australiana & outras histórias

Por Bruno Bocayuva

 

Campeão reforça seu corner 

Ross Williams deixa comentários na WSL para manter JJF no topo

Até a primeira bateria entrar na água em Snapper Rocks, a grande notícia do inicio de temporada no Circo da elite era a mudança de papel de Ross Williams. O surfista mais discreto da geração “New School” deixou os parceiros de transmissão Joel Turpel, Ronnie Blakey, Martin Potter e Peter Mel para reforçar o time do príncipe de Pipeline e defensor do título mundial, John John Florence. Vai fazer falta na cabine, pois mesmo sem muito “tempero” sempre foi preciso e muitas vezes profundo nos seus comentários. Atitude paradoxal à do mito Pottz, um revolucionário com a prancha no pé e contido com o microfone na mão. 

No corner do João João, Williams deve agregar, pois mesmo sem ter sido um competidor brilhante ( Teve dois vice-campeonatos como melhores resultados no WCT - Rio de Janeiro em 1996 - Diante de seu amigo e parceiro de geração, Taylor Konox  e J-Bay 1999 - Para o convidado do patrocinador e futuro campeão do mundo, Joel Parkinson ) é inteligente, conhece o Tour por dentro, parece enxergar longe e pode apurar os detalhes necessários para um #1 se manter no topo. Ross assume esse novo papel num momento histórico especial. Antes contestados, os técnicos agora parecem essenciais. Para ilustrar a tese vou lembrar de alguns em atividade no Tour. Ricardinho ( Filipe Toledo ), Charlão ( Gabriel Medina ), Pinga ( Italo Ferreira ) Glen Hall ( Tyler Wright e Matt Wilkinson ), Edgar Bischof  ( Caio Ibelli ), CJ Hobgood ( Carissa Moore ) e Chris Gallalagher ( Jordy Smith ).

foto Instagram @john_john_florence

Confissões de um enviado especial

O melhor lugar para assistir um campeonato é de frente para o computador

De cara para a ação, in loco mesmo, na hora do vamos ver nas baterias, mantenho um olho no “peixe”  de camisa vermelha e outro no “gato” camisa azul. ( a camisa amarela só entra em cena quando o campeão mundial ou líder do ranking estão em ação ) A intenção é ajudar o meu parceiro de barca Gabriel Rios ( cinegrafista casca-grossa do time do Woohoo ) a escolher o/a surfista em melhores condições para performar no tão esperado altíssimo nível. 

Enquanto ele enquadra o/a competidor/a, eu acompanho a trajetória desse alvo, mas divido o meu quadro de visão com o/a seu/sua oponente. Se a onda de trás prometer mais que a da frente mando sem exitar: Gabriel! O/A  fulano/a está vindo numa melhor lá atrás. Confio tanto nele, que quando fico na dúvida deixo ele a vontade para decidir. Essa é a nossa  dinâmica obrigatória nos clássicos e baterias decisivas. Esse processo só é interrompido quando temos que fazer alguma entrevista no palanque. Nessa hora deixamos o tripé na areia, ou no caso da Gold Coast, nas pedras irregulares e super cortantes e seguimos para a área que a WSL disponibiliza para o contato dos/as jornalistas com os/as surfistas. Para perder o mínimo possível da ação, tirando as finais, só sigo de microfone em punho quando alguém produz algo muito especial dentro d’água ou quando realmente precisamos equilibrar a relação de ondas captadas, com a sempre oportuna humanização produzida pela opinião de competidor do Tour. 

Tudo isso muitas vezes me impede de uma análise mais clara de algumas baterias. Salve o Heat Analyzer! Não é a toa que eu falo: Para a assistir um campeonato do CT em detalhes, o melhor lugar é sentado de frente para o seu computador.

foto Instagram @brunobocayuva

 

A piscina de ondas da Baáa do Arco-Íris

“ Isso aqui está parecendo a onda do meu Rancho” - Kelly Slater

Quem a acompanhou a primeira etapa do Championship Tour de perto, seja na praia ou de frente para uma tela de cristal líquido, vai demorar para esquecer as ondas perfeitas, as condições de sonho das baterias  da terceira fase da batalha. As longas direitas partiam de frente das pedras e ás vezes atrás delas em Snapper Rocks, horas com um tubo logo no início ou com paredes ao feitio para grandes rasgadas. A partir daí rolava aquele movimento de pêndulo que podia ser desenhado com batidas e rasgadas ( aéreos só para poucos nesse momento ) para, já dentro da Rainbow Bay um tubo técnico, mas super plástico, chamar os surfistas para se encaixarem dentro dele, para em seguida ganharem mais um bonita parede já pertinho de Greenmount. Ali era hora  para novas rasgadas e batidas, onde o bico da prancha e a água jorrada aos litros comprovava a força da performance, pois a essa altura, por conta da linha das ondas colocar as mesmas num ângulo quase perpendicular a praia, já víamos tudo de costas. 

Os tubos da primeira sessão surfados na bateria mais eletrizante até aquele momento, com Jordy Smith virando de forma espetacular o embate contra o novato Ezekiel Lau fecharam um final de tarde clássico no Super Bank. 

Na manhã seguinte foi pura magia. As paredes compridas que tinham como melhor momento a passagem pela Rainbow Bay pareciam tiradas da Kelly Slater Waves Co. Eu perguntei isso ao próprio KS e ele foi categórico: “ No meio daquela eu pensei: Isso aqui está parecendo com a onda do meu Rancho. Enquanto eu atrasava para pegar o tubo isso passou pela minha cabeça.” E como o homem jamais vai superar a natureza, a cor da água na Baía era muito mais bonita do que na piscina do ícone careca. Quem também fez referência ao Rancho quando arguida depois de entubar na Rainbow Bay foi a convidada de luxo da piscina de Slater, a hexacampeã do mundo, Stephanie Gilmore. “ Me lembrou de lá sim. Quando eu acertei a base e vi aquela água lisinha rodando pareceu muito mesmo.” 

 foto instagram Kelly Cestari @kc80 - Snapper Rocks

 

 foto Intagram @stephaniegilmore -  Kelly Slater Waves Co.

 

Mulheres e homens nota 10

2 + 2 = 4 

No FLA X FLU entre machistas e feministas eu jogo e torço por elas. No surfe não importa o que vem no meio das pernas e sim o que as pernas fazem em cima da prancha. Nesse primeiro clássico na Gold Coast para mim elas levaram. 

Não sei se atacar as longas direitas do pico de frente favoreceu as finalistas, mas na análise nua e crua das performances, Lake Peterson ( vice ) e Stephanie Gilmore ( campeã ) me empolgaram mais que os finalistas goofies, Matt Wilkinson ( vice ) e Owen Wright ( campeão ). Não foi a toa que até chegarem lá elas conquistaram as duas notas 10 da batalha feminina. Enquanto Lake chegou a perfeição num “compo” de tubo com rasgadas, Happy Gilmore o fez com três machadadas poderosas no olho de uma onda da série. 

No masculino a dupla nota dez juntou Italo Ferreira e Ezekiel Lau. O nosso guerreiro que se machucou decolando nos treinos depois do evento, e vai ter que ficar de fora do resto da “Aussie Leg”, decolou alto e fez um giro completo de backside ( marca registada ) na repescagem. Já  na última bateria da terceira fase o novato havaiano tirou um tubaço de frente para as pedras que dão nome ao pico. O detalhe é que mesmo com a nota máxima Zek foi superado por um surfista que parecia caminhar para um grande resultado no evento, o grandão e talentoso sul-africano, Jordy Smith.

 

 

Eletricidade entre as duas maiores estrelas

& outras polêmicas

Não tem jeito. Eternamente mergulhado na subjetividade o surfe competição foi e será sempre um oceano fértil para diferentes interpretações. Nessa primeira batalha de 2017 o grito que chegou mais longe, para a surpresa de muita gente, foi contestando o favorecimento de um brasileiro. O reclamante foi ninguém mais, ninguém menos que o mito Slater e o favorecido o super- herói Medina. Na hora do ocorrido, que me consta ninguém viu. Tudo rolou no começo da bateria das quartas com doze títulos mundiais na água. Kelly veio numa de trás do pico com potencial para um bom tubo e lá na frente da linha da onda, Gabriel ameaçou remar e desistiu, mas formou uma pequena bola de espuma, que cresceu e esmagou o canudo que KS tentava perfurar. 

A coisa só ganhou corpo quando caiu no universo virtual com um post no Instagram  do carismático e estiloso  yankee vice-campeão do mundo em 91, Brad Gerlach que exibia na rede social um “frame gab” da cena. Aí Slater aproveitou para escoar o estresse da derrota na eletrizante bateria, que para quem não se ligou ou já esqueceu, foi um espetáculo de alta performance, com trocas de lideranças tensas e uma virada espetacular de Medina no final quando ele precisava de um pouco mais de 6 e tirou um 9,17 depois de espancar um linda direita quase até Greenmount. 

Outras baterias que geraram falação foram as duas que levaram o campeão da etapa em 2016 até mais uma final em Snapper. Nas quartas de final contra a estrela da casa Joel Parkinson e na semi contra John John, muita gente achou que Matt Wilkinson foi super valorizado em suas manobras. Mas esses gritos não chegaram tão longe.

 

Épico à Australiana 

Fora o nosso evento brasileiro, de todas as outras 10 etapas, três disputam o status de reunir a nossa maior colônia praiana. São elas as provas de: Gold Coast (AUS), Trestles (EUA) e Peniche (POR). Mas nesses últimos cinco anos vivendo as emoções desses eventos eu nunca tinha visto tantos brasileiros como nesse ano na Goldie. Passando pela areia entre uma entrevista e outra era possível ver grupos e mais grupos de brasileiros. Bolas e camisas de futebol, figurinos próprios ( homens de sunga e mulheres de biquinis de lacinho ) nos diferenciavam dos australianos. Parecia que eu estava em Maracaipe.. Ipanema…Itamambuca… Joaquina. 

Mas apesar de Medina ter sentido o cheirinho da final, a apoteose foi deles. E foi daquelas vitórias dramáticas. Como se Escolas de Samba que sofreram no passado recente, encontrassem redenção e glória. Dos finalistas, entre mulheres e homens, apenas Matt Wilkinson não vinha de um tempo de incertas e angustia. Lake Peterson sofreu uma grave contusão no tornozelo na mesma Gold Coast no inicio de 2016 e ficou o resto do ano se recuperando. Stephanie Gilmore fraturou vários ossos da perna no meio também de 2016 e perdeu várias etapas. 

E na mais divulgada e acompanhada lesão de todas, a sequela não foi física e sim neurológica. Acidentado em Pipe no fim de 2015, Owen Wright chegou a pensar em abandonar a carreira. Teve que reaprender a fazer quase tudo. Se não fosse sua incrível família, sua equipe de apoio e o suporte da própria WSL ele não teria sequer participado da festa. Agora imaginem o cara chegar lá, de frente para sua torcida, amigos e família e terminar no topo. Mesmo com a alegria em torno de sua volta ele seguiu fora do radar reservado aos favoritos até pelo menos a quarta rodada. A partir dali ele se impôs usando a flexibilidade de um corpo esguio, sem nenhuma gordura e o talento de fora de série que ele sempre foi para derrubar um a um seus “irmãos goofies” Connor O’Leary, Gabriel Medina e Matt Wilkinson. Para coroar o enredo de um romance épico com o renascimento do cara que é uma figura muito querida no Tour, sua mulher Kita e seu filho Vali, de menos de 1 ano, o esperaram fora água para um momento de explosão de emoção e felicidade. Foi contagiante. 

Owen Wright ainda detém o recorde de vitória mais valiosa ($) da história, 300 mil dólares no WCT de Nova York em 2011. Mas não precisa nem perguntar para ele qual foi a sua conquista mais especial?

foto instagram @owright

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