AGUARDE
22 setembro 2016

Preciosidades de Caetano Veloso

Da gigante discografia de Caetano, escolhi falar de "Qualquer Coisa", grande tratado minimalista da suavidade e beleza.

 

 

 

 

 

1975 foi um ano muito especial para o time tupiniquim que fazia música. Rita Lee lançou o cultuado “Fruto Proibido”, Tim Maia redefiniu os conceitos de suingue e emissão vocal com o “Racional Volume 1”, Milton Nascimento colocou seu nome e seu estado no mapa dos gigantes da música brasileira com “Minas” e Gilberto Gil aceitou o convite do mago da indústria fonográfica, André Midani, mudou de gravadora e colocou nas prateleiras o irretocável álbum “Refazenda”. Porém, o motivo do nosso post é outro lançamento do meio dessa profícua década.

 

 

Depois de retornar do exílio em Londres, em 1972, Caetano Veloso decide ter um filho, lança um disco experimental, o controverso “Araçá Azul”, e finalmente em 1975 conclui que tem material não só para um, mas dois LPs. Como, segundo o próprio Caetano conta, era contra o costume geral de comportar dois discos em uma só capa, resolve dar a luz à "Jóia”" e "Qualquer Coisa”. Esse último é objeto da nossa apreciação de agora.

 

 

Ainda tínhamos censura, o Presidente era o famoso linha dura Ernesto Geisel, quarto dessa fase horripilante do país. Portanto, não dava para falar o que se queria, só o que era permitido. Mas nesse disco Caetano estava disposto a brindar nossos ouvidos com sua voz e seu violão, que àquela altura já imprimiam a personalidade que foi repetidamente reverenciada mil vezes mais tarde. Das 12 músicas da bolacha preta com um buraco no meio, cinco tinham a assinatura do antigo baiano, o que reitera o caráter de intérprete do disco.

 

 

A canção “Qualquer Coisa” abre os trabalhos e se você não esteve na lua nos últimos 40 anos, já se deparou com os versos e a harmonia dessa pérola pop contemporânea. “Da Maior Importância”, também escrita por ele, onde uma DR é incrivelmente transformada em música - e que durante muito tempo, toda cantora que queria mostrar competência colocava no seu roteiro (me lembro de pelo menos umas quatro que já vi cantar com aquela cara: “Viu como sou boa? Consigo cantar essa canção”) - ainda serve hoje em dia pra utilizar com o crush. Enfim, o disco segue e as faixas 8, 9 e 10 são três músicas da dupla Lenon e MacCartney: “”Eleanor Rigby””, ““For no One”” e ““Lady Madonna”” respectivamente.

 

 

 

As três evidenciam uma característica que ficou bastante patente na carreira do bom baiano: seu poder de simplificar e engrandecer as canções com sua preciosa inteligência interpretativa. Seu Veloso poderia ganhar um Grammy disso se houvesse essa categoria. Ainda mais nos nossos conturbados dias de mídias sociais, onde berros e gritos são confundidos com técnica e apuro. O que o vovô Caê deixa como legado específico nesse trabalho é que talento e vocação a gente aprimora, e que 50 anos de estrada não podem ser percorridos pra quem não tem sapatos adequados. Pra quem não conhece “Qualquer Coisa”, que tinha o significativo subtítulo de “”A Outra Metade de Jóia"”, ele se encontra disponível nas principais plataformas de streaming que estão por aí. Não se poupe de ser tocado pela genialidade de Caetano Veloso, claro, se você ainda não foi. :)

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