AGUARDE
27 fevereiro 2015

Prova de contato com Ricardo Bravo

O português que nunca escolheu ser fotógrafo mas acabou virando um dos melhores do seu país

Ricardo Bravo é um dos fotógrafos de surfe portugueses mais conceituados, pra não falar da quantidade absurda de imagens que já publicou na imprensa especializada europeia. Conhecido pelo seu profissionalismo, disponibilidade e relação próxima que mantém com alguns dos melhores surfistas da sua terra - como, por exemplo, Tiago Pires, Frederico Morais, Nicolau von Rupp ou Vasco Ribeiro - , ele é o protagonista de mais uma Prova de Contato, série de portfólios publicada regulamente no nosso site. Todas as legendas das imagens em cima foram realizadas por Ricardo que, acabou de ser pai da segunda filha e já muitas vezes se viu obrigado a fotografar com a primeira no colo.

1. O que é que você está fazendo agora?

O que sempre fiz: bater fotos e andar por perto da linha da maré. Agora com o extra de ter que descobrir (pela segunda vez) como se conjuga essa profissão com a paternidade. Como todas as coisas boas da vida, não há regras, conselhos ou livros que nos salvem. Instinto e bom senso ajudam bastante. Depois a Natureza dá a ajuda que falta: quando você acha que já não tem jeito de acertar na maré, no vento, no surfista e ainda trocar a fralda, ir no pediatra e fazer as compras da casa, sua filha dá o primeiro sorriso, os primeiros passos, fala a primeira palavra e pronto... baterias recarregadas.

2. O que é que você ainda não fez e quer fazer?

Queria fazer um trabalho exaustivo de retrato de surfista - fotografar quem liberta tristezas e amplia alegrias nas ondas. Mas ainda não cheguei lá... Ainda não descobri o melhor caminho... Acho que preciso de mais uns anos de maresia para chegar lá. Se no final conseguisse imagens dignas de conversarem com as palavras do Pedro Cézar e a música do Rodrigo Leão, seria um sonho concretizado.

Se no final conseguisse imagens dignas de conversarem com as palavras do Pedro Cézar e a música do Rodrigo Leão, seria um sonho concretizado

3. Por que é que você decidiu se especializar em fotografia esportiva e de que forma é que isso influenciou o seu trajeto pessoal e profissional?

Eu não decidi. Foi assim. Eu quis e quero muito fotografar o mar, as ondas, e por consequência o surfe. Influenciou tudo: as amizades, os amores, o casamento... Meus pais sempre gostaram de praia, meus irmãos mais velhos pegavam onda de bodyboard (um deles ainda pega), minha mulher também pratica bodyboard, minha filha de quatro anos está descendo as primeiras ondas e espero que a próxima também queira integrar o time da praia... É que até minha sogra é bodyboarder, e sogra já se sabe: não se escolhe! Então, eu acho que a minha vida foi acontecendo assim, com o mar e a fotografia como presenças muito fortes.

4. Você também pega onda de bodyboard. Ainda surfa com regularidade? Quais são os seus picos favoritos em Portugal e no mundo?

Tento pegar onda uma vez por semana, mas nem sempre é possível. Havendo menos trabalho posso conseguir ir mais vezes. Algumas vezes - dias de ondas pequenas ou muito crowd - prefiro até fazer bodysurf para estar mais em contato com o mar e relaxar. Em Portugal gosto de surfar Carcavelos, Caparica e Praia Grande que são bons beach breaks perto de casa. No mundo, quando saio pra fotografar, muitas vezes não sobra tempo pra surfar, mas guardo boas recordações da Ilha Reunião, Indonésia (Padang -Padang),  França, Austrália, Maldivas, México...

Em Portugal gosto de surfar Carcavelos, Caparica e Praia Grande que são bons beach breaks perto de casa. No mundo, quando saio pra fotografar, muitas vezes não sobra tempo pra surfar, mas guardo boas recordações da Ilha Reunião, Indonésia (Padang -Padang), França, Austrália, Maldivas, México...

5. De que forma é que a crise econômica na Europa e, em particular, em Portugal está afetando o seu trabalho?

Em termos de estabilidade financeira, nos últimos dois/três anos, tem sido muito duro. Vários clientes meus tiveram que fechar as portas, outros tiveram que reduzir custos...  Assim, por causa dessa crise econômica, tive que regressar à vida de free-lancer e ainda estou me adaptando. Mas estou optimista, a nossa economia parece estar recuperando, temos um país lindo que está agora sendo descoberto por turistas que se deslumbram com a gastronomia, clima, um povo que recebe bem, cidades vibrantes como Porto e Lisboa e as melhores praias e ondas da Europa.

6. É difícil nesse momento sobreviver apenas da fotografia de surfe aí?

Não é difícil, é impossível. Tem que ter outras fontes de rendimento. Eu acho que seria possível se os fotógrafos de surfe cobrassem para os clientes do surfe o mesmo que cobram para clientes de outras áreas. Mas é um pouco como os surfistas e os patrocínios: muitos acreditam que é uma vida de sonho e estão dispostos a trabalhar quase de graça... Assim o mercado fica desequilibrado e tem dias que o sonho vira pesadelo.

Eu procuro sempre outras fontes de rendimento através da fotografia, até para aliviar um pouco a pressão e ganhar meu tempo para olhar o mar sem compromisso.

Em termos de estabilidade financeira, nos últimos dois/três anos, tem sido muito duro. Vários clientes meus tiveram que fechar as portas, outros tiveram que reduzir custos... Assim, por causa dessa crise econômica, tive que regressar à vida de free-lancer e ainda estou me adaptando

7. Quais os lugares onde você mais gosta de fotografar? E que surfistas você mais gosta de fotografar e porquê?

Não tenho um lugar preferido. Se for perto da areia molhada já está bom.... Acho que todas as praias têm os seus momentos especiais de luz e ondas. A Nazaré é um lugar muito especial, mas essa é uma longa história. Depois tem a praia de Carcavelos, a cinco minutos de minha casa, que já fotografei muitas vezes e, por isso, encaro sempre como um desafio: voltar ao mesmo lugar inúmeras vezes e ainda ser capaz de fazer novas imagens. O sul de Portugal é lindo, uma luz incrível, mas o norte, com os seus ventos e nevoeiros também é muito fotogênico. É um país pequeno que parece ter vários pequenos países coabitando, cada um com a sua paisagem, seus hábitos, sua luz...

Ao longo destes anos tenho sido um privilegiado por poder trabalhar e acompanhar as carreiras dos melhores surfistas portugueses, como é o caso do Tiago Pires, Vasco Ribeiro, Frederico Morais, João de Macedo, Alex Botelho e tantos outros. Gosto muito de trabalhar com surfistas que sejam apaixonados pelo surfe e pelo mar, que compreendam o meu trabalho e gostem de trabalhar com o fotógrafo. Com os surfistas de competição pode ser mais complicado, porque eles têm sua própria agenda, suas preocupações, seu foco está quase a 100% (e muito bem) nos campeonatos, então nem sempre têm aquela disponibilidade para o fotógrafo. Mas tudo bem, faz parte da profissão.

8. Se pudesse roubar uma foto qual seria (qual a foto que você gostava de ter tirado e não tirou)?

Em termos desportivos, talvez o momento em que o Tiago soube que entrou para WT. Ele é bem reservado na relação com os fotógrafos, e muito consciente da presença de uma câmara, acredito que nesse momento ele tenha deixado cair todas as máscaras...

No campo artístico tenho uma sensação quase permanente de que devia ter estado aqui ou ali... Estou em casa, ou na rua, olho para o céu, vejo a luz, o vento, as cores e penso que devia estar a fotografar.

 

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