AGUARDE
15 janeiro 2015

Prova de contato | Steve Sherman

Sempre perto dos surfistas do WCT * Todas legendas por Sherman

É presença assídua nos campeonatos mundiais de surfe e dá para reconhece-lo fácil de longe. Além de ser bem alto, anda sempre de um lado pro outro de chapéuzão e máquina pendurada no pescoço. O Woohoo aproveitou a passagem do fotógrafo americano Steve Sherman pelo Billabong Rio Pro pra arrancar dele, não só uma entrevista, como algumas das melhores fotos da história recente do surfe profissional.

1. Como é que você começou a fotografar?

Estava na escola, trabalhando pro jornal do colégio e desde cedo comecei a fotografar a preto e branco. Depois fui para a revista Transworld Skateboarding e trabalhei nessa área por um bom tempo. Fotografei o Tony Hawk, o Stacy Peralta... Mas fui surfista a vida inteira, por isso decidi ir mais pra esse lado e virei editor de fotografia da Transworld Surf. Gosto muito de fazer retratos e quase não tem ninguém fazendo isso no surfe, fui o primeiro a fazer isso, penso que trouxe um pouco da estética do skate para a fotografia de surfe.

2. Você ainda surfa com regularidade?

Sim, claro. Sempre que viajo, levo duas pranchas comigo.

3. Você consegue sempre, em todos os campeonatos, aquela foto que mais ninguém consegue. Aquela imagem mais íntima, mais próxima, mais verdadeira. Como você faz isso? Quão íntimo você é dos caras?

Bem, a questão da intimidade ajuda. Eu sou muito próximo desses caras faz tempo. É quase um trabalho que fazemos entre nós, o que acaba sendo injusto com outros, porque eu os conheço muito bem, eles confiam em mim e somos amigos. O Kelly, o Parko, o Mick, todos eles sabem que eu sou um cara tranquilo e muito rápido no meu trabalho. Por isso não é um drama trabalhar comigo, penso que sempre consigo os resultados. Por exemplo, com o Andy Irons, acho que lhe dei aquele toque de personagem meio rock 'n' roll que ele nunca teve. Eu inventava de ele vestir roupas um tanto estranhas, de gangster ou reverendo, e ele sempre fazia tudo o que lhe pedia. Sempre fui muito próximo deles.

Tanto o Kelly como o Andy já ficaram putos comigo. Teve uma vez que eu tirei uma foto do Kelly entrando na casa do Andy, é uma foto famosa, em Off The Wall (no Havaí). O Kelly foi lá, por engano, segundo o que ele falou, mas quando ele chegou, o Andy estava lá e toda a casa ficou em silêncio

4. E nunca teve problemas com nenhum deles? Por exemplo, publicar uma foto que eles não gostaram ou se sentiram demasiado expostos...

Teve uma vez que o Andy ficou puto comigo. Foi aqui no Brasil, estávamos em Florianópolis. O Kelly estava na corrida para o seu 7º título mundial e tinha de eliminar o Andy para o fazer. Faltavam três dias pra isso acontecer, ia ter um churrasco na casa da Billabong e me chamaram pra ir. Fui com mais um amigo e estava lá o Andy, o Parko, o Occy e mais umas pessoas, não muitas, era uma coisa mais privada... Estávamos lá sentados, tomado cerveja e de repente o Andy diz: Pôrra, Sherm, o que é que você está fazendo aqui? Eu sei o que você está fazendo, você está aqui pra me ver perder esse negócio, você e o Kelly. Vai se ferrar! E me falou isso tudo enfiando o dedo na minha cara. No meio dessa situação, o Parko agarrou na minha camera e começou tirando fotos do Andy falando super próximo do meu rosto. E eu só dizia pra ele: Pô, Andy, você não se lembra? Eu estive do seu lado durante os seus dois títulos mundiais, te vesti como um presidente, eu também estou aqui pra você, não faço parte do time de ninguém. E aí, ele olhou pra mim e falou: Ok, você está certo. E me abraçou. Tenho fotos dessa sequência toda que termina com uma foto de nós todos juntos.

5. E o Kelly? Já teve problemas com ele?

Sim, ele também já ficou puto comigo. Teve uma vez que eu tirei uma foto do Kelly entrando na casa do Andy, é uma foto famosa, em Off The Wall (no Havaí). O Kelly foi lá, por engano, segundo o que ele falou, mas quando ele chegou, o Andy estava lá e toda a casa ficou em silêncio. A imagem mostra o Andy furioso olhando pro Kelly e foi publicada na Transworld Surf. Na legenda falava que o Kelly tinha ido lá em mais um dos seus joguinhos psicológicos, mas não fui eu quem disse ou escreveu isso. Três meses mais tarde encontrei com o Kelly na Gold Coast e ele: Oi Sherm, posso falar contigo? E eu: Claro. E ele me puxou para um lado e perguntou porque é que eu tinha falado que ele tinha tentado sacanear o Andy. Aí eu respondi: Não, eu apenas tirei a foto mas os caras lá deram uma dimensão maior ao negócio. Ele apenas queria saber o porquê e se tinha sido eu a falar aquilo. Foi a primeira vez que ele ficou chateado comigo, mas agora ele adora essa foto, ele me falou isso.

Neil Young, sem qualquer hesitação. Adoraria fotografá-lo. E no segundo lugar da lista está o Bruce Springsteen. Mas primeiro o Neil Young e acho que um dia vou conseguir

6. Você toca percussão e é fã de música. Que músico você gostaria de ter fotografado e ainda não fotografou?

Neil Young, sem qualquer hesitação. Adoraria fotografá-lo. E no segundo lugar da lista está o Bruce Springsteen. Mas primeiro o Neil Young e acho que um dia vou conseguir. O meu amigo Lucas, filho do Willie Nelson, é amigo dele e ele é o seu mentor. O Lucas tem 25 anos e está construindo essa ponte pra mim, sempre que pode fala de mim pra ele.

7. E fora do surfe e da música, quem você gostaria mais de fotografar?

Para ser franco com você, eu sou um fotojornalista, por isso qualquer coisa que tenha um conteúdo noticioso me interessa... Se não tivesse dois filhos, provavelmente estaria fazendo cobertura de guerras e a documentar coisas desse tipo. Esses cenários sempre me atraíram. O fotojornalismo desse tipo é intenso, no limite, documental... Aqui, no Brasil, gosto de ir nas favelas, também já estive em lugares sinistros na África do Sul, adoro fazer esse tipo de trabalhos. Estive com o Adriano de Souza na favela onde ele nasceu em São Paulo, o pai dele pediu permissão ao cara que a controlava pra fotografarmos lá. Tomamos um copo no boteco do tio dele, depois entramos no lugar e falaram que éramos os primeiros brancos a ir até lá. Disseram que estávamos seguros, mas ficamos pouco tempo, uma meia hora - estávamos com cameras e tem coisas que não dá pra controlar...  Mas ele nos mostrou onde tinha nascido, foi incrível! Adorei!

Gosto sempre de estar em lugares onde não deveria estar, porque aí consigo fazer o que mais gosto, ou seja, imagens íntimas. Com o surfe, cobrindo o WCT, consigo fotografar os caras a se preparar para as baterias e depois delas, se abraçando, felizes, ou chorando, isso é fotojornalismo e o que eu curto fazer

8. Se você tivesse de escolher, do seu portfólio, as imagens que mais gosta, quais seriam?

Dos trabalhos recentes que tenho feito, gosto muito das fotografias com bandas de música, imagens de bastidores... O concerto dos Pearl Jam, em Novembro, quando eles tocaram em San Diego, foi incrível pra mim. Foi um show de três horas e eu tive acesso ilimitado, foi das melhores coisas que já fotografei, foi uma noite cheia e, depois do concerto, o Eddie me chamou pra ir de novo nos bastidores. Fotografei ele no seu camarim, foi um sonho. Gosto sempre de estar em lugares onde não deveria estar, porque aí consigo fazer o que mais gosto, ou seja, imagens íntimas. Com o surfe, cobrindo o WCT, consigo fotografar os caras a se preparar para as baterias e depois delas, se abraçando, felizes, ou chorando, isso é fotojornalismo e o que eu curto fazer.

9. Se você pudesse roubar uma foto qual seria?

Pô, essa é difícil, hein... Provavelmente algumas do Anton Corbijn, um fotógrafo muito famoso holandês. Também gosto muito do trabalho de uma inglesa chamada Penny Smith. O seu trabalho é muito focado no rock 'n' roll e ela fotografou muitas coisas dos The Clash. Mas tem mais, pessoas que fazem trabalhos dentro desse género meio rock 'n' roll e que admiro muito.

10. E qual foi a imagem mais cara que você vendeu?

Algumas das fotos que fiz do Kelly vencendo títulos mundiais que vendi à Quiksilver.

 

 

 

 

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