AGUARDE
22 novembro 2016

Silva canta Marisa e a gente curte e compartilha.

O capixaba multi-instrumentista mergulha no bem sucedido repertório da morena carioca e o resultado foi incrível.

Discos tributos costumam polarizar opiniões. Há vezes em que as versões originais são tão definitivas que a releitura não se justifica e pior, detona a intenção de homenagem. Nesse caso específico, o risco foi alto. Marisa Monte surgiu no cenário musical no final dos anos 80 e logo assim que apareceu redefiniu conceitos estéticos e principalmente vocais. Sua emissão perfeita, estudada e sempre a serviço de um repertório relevante, moldou tudo que surgiu depois e subiu muito o teto de quem consumia música brasileira. Passados mais de trinta anos, Silva resolve selecionar as canções compostas por Marisa que mais gosta e que mais se adequavam a sua proposta de repertório e lança “Silva canta Marisa”, projeto que foi concebido para virar especial de TV num canal a cabo e que acabou também rendendo algumas apresentações ao vivo. Desse movimento, Marisa e Silva se conheceram e acabaram construindo uma parceria, que também conta com a presença do irmão de Silva, Lucas. O primeiro fruto dessa colaboração está no disco que acaba de ser lançado pela SLAP e que conta com a luxuosa participação da homenageada.  

Noturna é a canção inédita do disco Silva canta Marisa, parceria dos dois com Lucas SIlva.

 

Vários aspectos transformaram o tributo de Silva numa sucessão de acertos. Primeiro, sua região vocal é outra e pra gente que ouve é fácil esquecer o registro indefectível de Miss Monte, o que pra uma cantora seria uma prova de fogo com grandes chances de derrota. Junto com isso, Silva tem um trabalho autoral totalmente consolidado e alocado a sonoridade pop contemporânea, calcada em teclados e programações eletrônicas inspiradas e bem longe do habitual. Violões e violino, instrumento de formação do rapaz, também habitam seu caldeirão sonoro e por conta disso não há nenhum resquício dos registros originais, o que não que dizer que a intenção das canções não tenham sido preservadas. Mesmo eletronicamente moldado, a pulsação do disco é orgânica, quente, viva. Novas possibilidades foram propostas e pra quem acompanha a carreira da bela morena a sensação é de frescor, não estranhamento. Quero destacar aqui primeiramente a belíssima inédita “Noturna”. Um tema singelo, pungente, com melodia quase clássica e uma letra que abraça as notas e deixa uma sensação de aconchego, acolhimento, enfim, é um abraço. Ficou lindo mesmo. “Eu sei (Na mira)”, faz parte do segundo álbum de Marisa, Mais, e virou um reggae, com a supressão de acordes na primeira parte e na segunda o baixo chama o groove pra si. Silva meu querido, você manja das paradas.  

"Na mira" era tocada ao vivo quase como samba por Marisa, SIlva transformou num reggae soft.

 

Uma das minha favoritas é “Pecado é lhe deixar de molho”, executada com piano e guitarra num clima new bossa, mais pra travesseiro que boate, com bateria de vassourinha. Um novo andamento, com a mesma métrica, coisa de quem estudou e sabe fazer música.  

 

Por último, mas não menos importante, o canto quase sussurrado de Silva, com registro de tenor mas em tom de barítono, legitima todas as propostas. Numa época em que volume está diretamente ligado a talento, o capixaba virtuoso nada contra a maré, garante a primeira posição no pódio., sem grandes concorrentes na categoria. Silva canta Marisa é relevante, original e definitivo. Pra não dizer que eu fiquei babando o ovo do rapaz, não entendi a capa. :)

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