AGUARDE
18 julho 2016

Steven Allain é o Brasil na Stab

Revista australiana quer se tornar global e investe num brasileiro como editor

Considerada por muitos brasileiros como uma das revistas de surfe mais polêmicas da atualidade, a australiana Stab tem agora um brasileiro no cargo de editor. O paulista Steven Allain é quem assumiu essa função a partir da edição número 85.

[caption id="attachment_32974" align="aligncenter" width="477"]Stab edição 85, que saiu em julho. Stab edição 85, que saiu em julho.[/caption]

Apesar de ter nascido na Suíça por acaso, Steven Allain é brasileiro e cresceu na capital de São Paulo. A paixão pelo surfe surgiu na adolescência durante as férias de verão em Ubatuba e se tornou mais forte após um intercâmbio para a Califórnia, aos 15 anos. Na época da faculdade, Steven foi aprovado para o curso de jornalismo e cinema numa faculdade australiana e o esporte do coração fez cada vez mais parte da rotina dele.

Passado esse estágio, Steven voltou ao Brasil e aí seus sonhos começaram a se realizar. O Woohoo conversou com ele sobre este momento e o resultado deste papo está nas linhas abaixo:

 

FLUIR

Em 2004, entrei para a Fluir e fiquei  cinco anos lá. Comecei como editor assistente, passei para editor até chegar a editor global, que é quem viaja.

A Fluir foi uma escola, trabalhei lá na época de ouro. A revista era super influente, lucrava muito e eles tinham verba para viajar e fazer as coisas. Foi um período muito legal. Eu aprendi muito, principalmente com o Alexandre Guaraná. O Adrian Kojin e o Guaraná eram meus chefes e me ensinaram muito, mas sempre fui mais ligado com o Guaraná.

[caption id="attachment_32978" align="aligncenter" width="604"]Steven a Alexandre Guaraná que foi editor da Fluir por anos. Foto: Reprodução Facebook Steven a Alexandre Guaraná que foi editor da Fluir por anos. Foto: Reprodução Facebook[/caption]

HARDCORE

Em  2009, a editora Rocky Mountain, do Caco Alzugaray, comprou a Hardcore e o Caco me chamou para tocar a revista e isso foi demais. Ele me deu carta branca para escolher a equipe, para fazer a revista da maneira que eu achava melhor e sempre apoiou a minha visão.

A ideia era dar uma chacoalhada mesmo, era mudar a Hardcore radicalmente e foi isso que a gente tentou fazer. Fiquei lá como diretor de redação por cinco anos. A revista é meu xodó, está no meu coração.

Essa fase foi muito legal. Na Hardcore eu podia fazer coisas que na época da Fluir eu falava: “se eu fosse o chefe, eu faria dessa maneira, faria de outra” e na Hardcore eu podia.

Foi legal fazer parte de uma editora como a Rocky Mountain, que é de esportes outdoor, de esportes de aventura. Eles têm uma pegada diferente, não vêm da cultura surfe e skate, eles vem de uma cultura de relação com a natureza e de desafio, que também tem paralelos com o surfe.

Foi legal cair neste ambiente, sentir o apoio da galera e participar dessa editora, onde todo mundo era atleta, sempre estava em contato com a natureza e apoiando esse lifestyle.

 

[caption id="attachment_32979" align="aligncenter" width="604"]Stevem já surfou em muitos lugares. Foto: reprodução Facebook Steven já surfou em muitos lugares. Foto: reprodução Facebook[/caption]

 

BALI

Eu venho para Bali desde 1998/1999. A partir da época em que morei na Austrália, passei a vir todo ano para cá e na hora de ir embora eu sempre falava: queria ficar aqui.

Bali mudou muito desde a primeira vez que vim. Hoje tem uma infraestrutura com supermercado, restaurantes, não é preciso abrir mão de uma série de coisas como era antigamente e, para melhorar, ainda tem as ondas. Bali é um lugar onde sempre está chegando gente interessante e criativa e é muito legal fazer parte de tudo isso.

 

[caption id="attachment_32977" align="aligncenter" width="604"]Steven numa sessão em Nias. Foto: Reprodução Facebook Steven numa sessão em Nias. Foto: Reprodução Facebook[/caption]

 

MUDANÇA PARA BALI

Estava conversando com um amigo que morava aqui, o Sebastian Imizcoz, um fotógrafo argentino, e ele me perguntou: o que você está fazendo em São Paulo?

Eu respondi que ele era louco de morar em Bali, e aí ele falou: louco é você que está morando na Babilônia. Isso fez muito sentido para mim.

Um mês depois, eu estava preso num trânsito em São Paulo, olhei em volta e só tinha carro, concreto e cimento … uma loucura. Aí me dei conta que aquilo não era a vida que eu queria para mim.

Desde a época da faculdade, eu sempre quis trabalhar com surfe e ser editor de revista de surfe. Corri atrás, batalhei para me tornar um editor e eu consegui. Mas é louco, porque quando você atinge um objetivo, surgem outros. Mesmo realizado profissionalmente e adorando o que eu fazia, eu estava longe da praia e o surfe era muito esporádico. Nesse momento, resolvi dar uma virada na minha vida. Queria ficar perto do surfe e perto do oceano, por isso eu fui!

Na verdade não foi tão simples. Eu conversei com o Caco Alzugaray, expliquei que não queria mais morar em São Paulo. Ele entendeu e disse que mesmo assim queria que eu continuasse na Hardcore. Aí assumi o cargo de editor internacional. Essa atitude do Caco foi super legal, porque mostrou toda uma visão dele e também da editora, que viram que era legal ter um correspondente em Bali.

Atualmente, o diretor editorial é o Adriano Vasconcelos, mas mesmo assim participo ativamente do dia a dia da revista pela internet, a revista Hardcore é como se fosse um filho.

 

 

RELAÇÃO COM A STAB

Nesses três anos que estou em Bali, comecei a colaborar com a Stab com textos, até que eles me pediram para produzir o documentário sobre a vida e morte do Ricardo dos Santos. Eu passei um período no Brasil realizando esse projeto e me aproximei muito deles. Quando voltei para Bali, eles me chamaram para passar um mês em Sydney para editar a edição 85 da revista.

Depois que a revista saiu, eles me chamaram para ser editor permanente e eu fiquei super contente. A minha relação com os caras é demais e a redação é muito legal, ela fica em Bondi Beach a poucos metros da areia.

A próxima edição eu estou fazendo aqui de Bali e talvez eu vá para Sydney ou Los Angeles (nova sede da segunda redação da Stab) no fechamento. A gente se fala diariamente pela internet, a tecnologia permite isso. São várias telinhas no computador com um monte de gente, é muito louco isso.

Já mais para frente eu ainda vou ver, mas provavelmente os caras vão me querer mais próximo de uma das redações, então não sei se vou continuar a morar em Bali por muito tempo.

Eu acho que estar na redação, próximo do editor de arte e dos repórteres é fundamental, mas por enquanto estamos testando esse outro formato.

 

 

A STAB

A Stab surgiu no mercado para sacudir as coisas, para ser diferente e eu acho isso muito legal. Uma das grandes críticas que muita gente tem sobre as revistas de surfe é que elas são sempre iguais, sempre a mesma coisa e e a Stab desde o começo pegou um caminho diferente.

Quando eles lançaram a revista há uns 10 anos, a matéria “The King of Queens” sobre a história do Matt Branson, que era um surfista hardcore e gay, marcou a revista.

[caption id="attachment_32987" align="aligncenter" width="900"]"The king of queens"teve uma repercussão mundial. Foto: Steve Baccon "The king of queens"teve uma repercussão mundial. Foto: Steve Baccon[/caption]

 

Assim como o nome diz a Stab é uma cutucada. Ela não fica em cima do muro e eu acho isso muito legal.

Falando da linha editorial, eles gostam de surfe progressivo e gostam de sensualidade, sempre tem o ensaio feminino. A Stab é sofisticada e é ligada à moda, eles usam outras facetas do surfe. A qualidade de quem contribui para a revista faz a diferença e por isso eles se mantiveram bem nesta fase difícil para os produtos editorais.

 

 

A LINHA EDITORIAL

Se a linha editorial vai mudar com a minha chegada… Não sei. Eu acho que a ideia é não mudar. É claro que terá a minha influência, a minha cara, mas não mudar. O intuito é crescer e manter a evolução natural do veículo.

A Stab está se tornando global, por isso eles abriram uma redação em Venice, Los Angeles.

Na equipe tem sul-africanos, americanos, australianos e agora um brasileiro. Isso sem falar nos colaboradores. A Stab é uma revista global e isso dá para sentir.

É claro que a importância dos brasileiros no cenário do surfe mundial colaborou para a minha contratação. Todos os meus contatos e o fato de eu ter acesso aos brasileiros é um fato muito bom para a Stab. Tanto é que na minha primeira edição eles publicaram uma entrevista com o Guigui (Wiggolly Dantas) e passaram a trabalhar com fotógrafos brasileiros que nunca tinham trabalhado. O Pinguim (Henrique Pinguim), o Diogo D’orey, o Rafaski … é muito doido isso, porque ao mesmo tempo que eu estou conhecendo novos fotógrafos e novos artistas através da Stab, eu também estou introduzindo à Stab uma série de colaboradores brasileiros. Essa troca é muito legal.

 

 

AS POLÊMICAS

Acho que uma das percepções erradas que a galera tem é que a Stab é contra brasileiros. E não é, isso eu posso garantir. Eu estava lá dentro e esse preconceito não tem.

Se eles fossem anti-brasileiros eles não teriam me contratado.

Mesmo antes de ter trabalhado com eles, eu nunca achei que eles eram anti-brasileiro. Se você olhar, mesmo quando tiveram matérias ou pautas com críticas contra os brasileiros, elas sempre foram de uma maneira equilibrada. Acho que quem cai para o sensacionalismo são sites como: Beach grit ou The Inertia. Esses sim, realmente tentam promover a discórdia entre as nações através das matérias.

A Stab, por exemplo, não deu nada sobre a rabeada do Medina no Jordy Smith e nem sobre o voto a favor do Medina e do Jadson para tirar a etapa de J-Bay, porque eles acharam que isso iria gerar uma controvérsia, que não seria interessante para a revista.

 

 

OS FÓRUNS DA REVISTA

A Stab tem um política de não censurar comentários. Foi assim desde o começo. Eu mesmo já entrei em discussões dentro da revista para saber se deveria existir ou não uma censura nos comentários de pessoas que só entram para causar. São comentários fortes, racistas e preconceituosos. E, claro, tem os brasileiros que respondem. Aí pronto, vira uma guerra. Os caras lá na Stab tem noção disso, eles falam: “maior galera no Brasil acha que a Stab não gosta dos brasileiros por causa de comentários e a revista acaba levando fama por causa dos fóruns”.

Eu acho que isso não tem como controlar e censurar, esbarra num território muito delicado. Quem decide o que é ofensivo e o que não é? Ou tira o espaço para comentários ou deixa rolar.

O legal é que já surgiram brasileiros que vão nos fóruns da Stab rebater esses comentários preconceituosos e racistas com educação e bons argumentos. O James B é o melhor destes exemplos e ele inclusive já foi convidado para escrever uma coluna da Stab e agora é comentarista do site da Hardcore.

Nos fóruns, eu acho que na primeira fase, as pessoas acham que podem falar o que quiser e alguns colocam todo o ódio e preconceito para fora. Mas agora está surgindo uma nova fase, na qual os comentários que ganham repercussão são os mais inteligentes, aqueles que têm sacadas rápidas e até mesmo uma pitada de cinismo.

 

 

AUSTRALIANOS

Acho que é difícil generalizar. Mas, sem dúvida, entre as principais nações do surfe (EUA, AUS, HAV e AFS), os australianos são os mais preconceituosos em relação aos brasileiros sim. E isso é palpável.

Uma minoria, bem pequena, odeia de verdade, e eles fazem muito barulho na internet, mas bastante australiano tem preconceito em relação aos brasileiros.

Mas essa história tem dois lados, como tudo. Ninguém ganha uma reputação por nada. A verdade é essa.

Qualquer brasileiro que já viajou por aí sabe que muitos brasileiros são mal educados e faltam com respeito na água. E, muitas vezes, os brasileiros agem dessa maneira porque podem, já que sabem que muitos gringos não vão querer entrar na briga. Essa atitude é ruim e é reflexo do jeitinho malandro brasileiro dos nossos políticos. Eles vão roubar porque é o país da impunidade e é mais ou menos isso que se vê nas Mentawaii. Os caras rabeiam porque vão ficar impunes, nada vai acontecer.

Olhando por esse lado, dá para entender. Mas não são todos os brasileiros que são assim, por isso não pode generalizar.

Eu mesmo sofro muito com o preconceito. Chego e falo que sou brasileiro e um monte de gente  torce o nariz. É horrível você sofrer pelos atos dos outros. Isso vem da ignorância e vem também de uma característica do povo brasileiro. Brasileiro fala alto, brasileiro é alegre e isso às vezes incomoda as pessoas, mas isso aos poucos está sumindo.

Atualmente existe uma compreensão maior entre as nações. As pessoas estão viajando mais cedo, estão aprendendo a se portar. Eu viajo o mundo inteiro para pegar onda e sinto cada vez menos esse preconceito em relação aos brasileiros. As pessoas estão entendendo que tem gente legal nos Estados Unidos, Austrália e no Brasil, assim como tem "cuzão" nos Estados Unidos, Austrália e no Brasil.

Um exemplo em relação à redução do preconceito é o fato da minha nacionalidade nunca ter sido uma questão dentro da Stab. Em nenhum momento eles falaram: o editor da Stab é brasileiro. Uma vez eu até brinquei com o Sam Macintosh (fundador da Stab): cara vocês estão contratando um editor brasileiro? É quase a mesma coisa que a seleção brasileira de futebol chamar um argentino como técnico. Aí ele me respondeu:

A gente liga para talento e não para a nacionalidade

Eu acho que esse é o caminho que a revista tem que tomar se ela quiser ser global como o surfe se tornou.

Tags:
COMPARTILHAR