AGUARDE
11 agosto 2014

Terrível na Flip

Comida, cachaça e 100% pelo serviço

A Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) tava rolando desde quarta, mas o Terrível só chegou na sexta à noite, após o expediente. Afinal, alguém há de alimentar a prole e sustentar tantos vícios imorais. Olhei no relógio e era 1h17, tempo de parar numa pizzaria quase fechada e dar uma carga no celular pra ligar pro Fernando, que era o cara que tinha arrumado o quarto num casarão a 10 minutos do centro histórico onde já estava hospedado um grupo de meninas francesas de 19 aninhos.

Espera no mercado que chego em cinco minutos. Não deu nem pra acender a ponta. Nosso amigo Fernando chegou pilhado, gestos & orientações, me segue por aqui, vamos por ali, prestenção que já são quase duas. Esse tipo de proatividade é o que o Terrível espera de toda a humanidade, mas só o Fernando tem (além de mim). Mesmo assim, conservamos o otimismo, porque ser otimista dá mais dinheiro. Uma vez acomodados, fomos ver se as francesinhas estavam bêbadas na praça. Azar o nosso: tudo o que encontramos foi a juventude em comunhão - fazendo social, tomando cerveja e criticando, indignada, as mazelas do capitalismo. Ou seja: dirigir um Ford Ka 2003 com o escapamento solto até Paraty numa sexta-feira à noite é o equivalente a demorar quatro horas pra chegar no Baixo Gávea. Felizmente, o Terrível é amigo da aristocracia e eu sou amigo do Terrível, então fomos de carona de helicóptero e deu pra ficar tranquilo, apreciar uma Maria Izabel envelhecida e apertar um cigarrinho de artista enquanto os intelectuais postavam selfies no Facebook. Além de difundir os ideais de Marx em redes sociais, o povo que frequenta festas literárias aparentemente também gosta muito de índio. O Eduardo Viveiros de Castro, por exemplo, que é um cara muito inteligente que você não conhece, falou sobre como nossa visão do Índio é estereotipada e não importa se ele dirige uma Hilux e usa calça jeans: ainda assim, ele é índio. E nós também não somos brancos europeus como pensamos, e o índio, por ser índio, merece. Não deu pra sacar exatamente o quê, mas a julgar pelos aplausos de pé ao cacique barrigudo que discursou na última mesa do domingo, não há dúvidas: seja lá o que for, o índio merece. De qualquer forma, índio até tudo bem, porque índio fala errado e isso gera uma espécie de carisma no índio. Agora: socialista serelepe de barba e óculos com armação de madeira defendendo índio – aí não. Aí o Terrível pega a mulher dele. Ou pego eu.

No dia seguinte, o Terrível arrastou a novinha pra exposição do Millôr e foi o caminho inteiro contando histórias desse cara que inventou o frescobol, que era autodidata, que traduzia Shakespeare, que era humorista, jornalista, dramaturgo, desenhista e seu avô, embora não fosse. Foi, sim, e muito justamente, o autor homenageado da Flip esse ano. Um parêntese: se você não o conhece o Millôr, saiba que ele foi um gênio, o cérebro mais brilhante de um brasileiro a habitar esse planeta, e sugerimos checar no Google, ou melhor, toma logo o link: http://www2.uol.com.br/millor/. E compre A Bíblia do Caos, A Verdadeira História do Paraíso, os livros de poemas, os de crônicas, os de fábulas, a coleção do Pif-Paf, as traduções de Shakespeare, enfim -- tá tudo aí reeditado e à venda nas melhores livrarias. O Millôr era tão gente fina que me pagou esse anúncio póstumo antes mesmo de morrer. Fim do parêntese. Mais tarde, entre uma colherada de caldinho de feijão e um gole de cerveja, Terrível avistou Fernanda Torres na mesa ao lado e quase cuspiu a porra toda. "Putaquilpariu, é a Vani!!!". Ela riu e ficamos horas e horas tomando doses e doses de Maria Izabel e falando sobre seu romance 'Fim', em que ela mata todos os velhos de Copacabana, um por um. Em algum momento chegou o Gregório Duvivier, mas o Terrível já estava alcoolizado e mandou o moço à merda sem mais nem menos. "Na boa, fera, você é muito sensível".

Domingo abri o olho de ressaca depois do meio-dia, cansado demais pra tirar onda de intelectual. A ordem natural das coisas levou a um café e um pão de queijo, e nesse ínterim - palavra de feira literária - o telefone tocou. Era a francesinha chamando pro restaurante thailandês hype da cidade. Tão hype que até o Siba tava lá (conhece o Siba?). O Terrível pagou a refeição com duas notas de cem, ambas com "larica" escrito em pilot preto. É um cara excêntrico. Na última mesa do fim de semana (antes do índio falando errado), autores liam trechos de seus livros favoritos. Marcelo Rubens Paiva, que é um escritor interessante e o intelectual cadeirante que mais come mulher do Brasil, lia "O grande Gatsby". Não que isso signifique alguma coisa especial, mas foi o trecho que deu pra pegar enquanto passávamos em direção ao banheiro. Ano que vem tem mais. Abs!

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