AGUARDE
16 maio 2014

Xico Sá

Só o chifre humaniza o homem

Xico Sá é colunista na "Folha de São Paulo", já publicou mais de dez livros, fora aqueles em que participou como coautor, e a sua página de Facebook conta com pra lá de 67 mil seguidores. Sem saber, todo o café da manhã Xico Sá faz companhia (wireless) à jornalista que assina essa entrevista, relação que tantas outras mulheres devem manter com ele, pelos seus conselhos descomplexados e cheios de sentido de humor. Fã incondicional das fêmeas, o especialista nordestino em assuntos do coração bateu um papo legal com o Woohoo sobre tudo e mais alguma coisa.

Você estudou jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco porque tinha o sonho de ser escritor. Como foi enquanto nordestino, embora já com alguma experiência, chegar em São Paulo? Li também que em mais jovem você era muito tímido...

Segui um caminho muito comum no Brasil: o do jornalista-escritor que ganha a vida na redação para poder escrever os seus livros. São Paulo havia sido o destino de muitos familiares pobres do sertão do Cariri que migraram para sobreviver. Uma rota natural até os anos 1980. Já cheguei na cidade como jornalista, com emprego no jornal “O Estado de S.Paulo”, então foi bem mais fácil do que os meus parentes que foram para trabalhar de operários da construção civil e da indústria. E sim, era extremamente tímido. Hoje sou um escritor pop que aparece na televisão [risos]. Veja como a necessidade de ganhar a vida é capaz de processar uma metamorfose.

Por falar em Nordeste, tem muita gente que brinca com os homens de lá. Dizem que quando traídos são capazes de matar a mulher e o amante, e ir para a cadeia para salvar a honra... Sentiu algum tipo de complexo quando chegou à grande metrópole?

Somos bem passionais mesmo, mas quanto à traição há muito folclore nisso. Fazemos também muito humor com essa questão do “corno”, o marido traído. Existem centenas de canções populares e carnavalescas. Depois que a dor de ser traído passa, tudo vira poesia, sátira, algo bem pitoresco.

Você passou por vários jornais e escreveu sobre polícia/crime, depois esporte, em seguida política, também sobre livros e foi freelancer. Um percurso confuso para quem queria era ser escritor. Acha que esse caminho, embora pouco planeado, foi o melhor ensinamento?

O jornalismo vai devorando o sonho literário. Então passamos a escrever nossos livros na madrugada e nos intervalos do trabalho. Uma sina cruel. Nunca tive todo o meu tempo para me dedicar totalmente à escrita mais literária, mas é uma conquista poder viver praticamente do ofício de cronista.

Você fez muito jornalismo de investigação e um dos marcos da sua carreira foi ter descoberto o paradeiro do PC Farias em 1993. Disse que o seu método de investigação foi totalmente diferente do tradicional, apostando nas relações de afeto dele e ficando em Maceió perto da família. Nos conta como tudo isso aconteceu...

Nem sei como consegui ser um repórter investigativo com tantas descobertas e uma atuação importante no caso que levou ao impeachment do ex-presidente Collor, quando revelei o paradeiro de PC Farias, o homem poderoso da máfia de Brasília, em Londres e depois Bancoc. Não foi nada como acostumamos ver no cinema americano, com repórteres que mais parecem o Bogart em romance policial “noir”. Meus métodos sempre foram os mais estranhos, como, por exemplo, embriagar as minhas fontes [risos], ficar amigo dos mordomos, entrevistar funcionários do baixo escalão, etc. Ao receber os prêmios importantes sempre agradecia a estes personagens do submundo.

Diz em várias entrevistas que a dada altura levou um “pé na bunda do chefe, da mulher, só não foi de mais gente porque não tinha…” Foi esse o pior momento da sua carreira/vida? Como deu a volta por cima?

Foi um inferno, um desassossego, mas desse inferno veio a minha boa vida de hoje. Deixei de ser um jornalista de prestígio e virei um cronista mundano, um comentarista de assuntos do amor e do sexo na televisão, enfim, transformei a minha existência. Tudo ficou mais leve e melhor. Até ganho mais dinheiro do que quando era um homem sério. A seriedade nos leva à ruína. Triste de quem acredita em si como muita retidão e austeridade. Triste.

Foi o melhor que poderia ter acontecido?

Foi um plano perfeito [risos]. Melhor: o acaso fez tudo mais uma vez por mim.

Fala que gosta muito de demissões porque elas matam a nossa covardia que nos impede de dizer “não, não quero mais esta história aqui”, que elas “tratam de editar a sua carreira” e por isso é que é bom nunca as desprezarmos. Você é sempre um cara otimista?

A demissão, assim como uma desilusão amorosa, podem ser desgraçadamente favoráveis às nossas vidas. No meu caso me levaram a uma virada em uma situação de comodismo. É a chance de tirar o mofo da nossa rotina. Não recomendo que as pessoas saiam pedindo para seres demitidas ou traídas, mas uma vez que são dores inevitáveis... aproveitemos. Não creio ser uma visão otimista, apenas cética e debochada.

É verdade que, a dada altura, uma mulher sua botou você num terapeuta porque você a estava traindo e, com o tratamento, deixou de ter histórias para contar ao analista ao ponto de voltar a trair ela outra vez e se separar?

Tudo verdade, como diria o Orson Wells. Precisava criar minhas narrativas, não é mesmo? Voltei à sarjeta amorosa e dela tirei minhas crônicas também.

Os seus textos sobre homens, mulheres e dramas nos relacionamentos começaram com a coluna “Macho”, na "Revista da Folha", em meados dos anos 90. Qual foi na altura a reação do público?

Havia feito reportagens importantes sobre política, incluindo grandes investigações sobre corrupção, mas diante da primeira crônica na revista a repercussão foi maior do que toda a minha história jornalística. Deixava as grandes questões nacionais para tratar da vida como ela é, da tragicomédia dos casais e da vida no submundo de São Paulo.

Tem quem o critique por ser machista, embora você demonstre sempre um enorme respeito pela mulher. Você entende esses comentários?

Recebo muitas queixas de machismo, talvez pela minha devoção exagerada e um romantismo à moda antiga. Isso não me preocupa. Vou continuar devoto e ao lado das musas. Muitos homens também escrevem críticas: acham que eu entrego os segredos masculinos para as fêmeas.

Porém, para muitas mulheres, você parece saber escrever sobre todos os assuntos que elas querem ler. Como você consegue isso? É vocação? Você o faz com base na observação e em confidências ou na própria experiência? Parece ser um homem de muitas mulheres…

Como cronista sou muito observador, presto muito atenção na vida dos casais nos bares e nos restaurantes. Também conto com muitos amigos garçons de tabernas que me contam histórias reais que testemunharam. Quanto às mulheres, fui casado cinco vezes e dizem que sou um homem de sorte, por ser feio e sempre namorar lindas raparigas [risos]. Minha mãe não gosta quando me tratam de feio, sempre me vê como a um galã.

Tem muita gente querendo falar com você para lhe pedir conselhos? Você responde e vai mantendo o contacto com essas pessoas?

Recebo milhares de e-mails e cartas do Brasil inteiro. Pessoas desesperadas em busca de uma filosofia de consolação. Também me confidenciam as suas taras sexuais, suas traições e algumas raparigas me pedem em casamento [risos]. Aproveito este rico tesouro do comportamento humano para escrever novas crônicas. Aos mais desesperados, quase suicidas, escrevo alguns conselhos. Não conselhos de um terapeuta, conselhos de experiência de vida.

"Esse negócio de que eu sou o comedor é a maior lenda. Mas como é a meu favor, então eu deixo. Boato a favor não se desmente", você disse em entrevista à "Revista TRIP". Até onde vai a sua fama? E o proveito?

A fama é bem maior do que o proveito, mas não tenho do que me queixar. Sou feio qual um sapo e amado como um príncipe.

As mulheres hoje em dia estão mais independentes. Você acha que isso assusta os homens? Porquê?

No Brasil, na América Latina no geral, os homens vivem em uma situação de espanto sim, mas estamos aprendendo a conviver com isso, esse belo e legítimo avanço das mulheres. Tenho um livro que fez bastante sucesso por tratar exatamente deste tema. Chama-se “Chabadabadá – aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha” (Editora Record, 4ª edição).

O Xico também se afirma contra o metrosexualismo, contra “um mundo moralmente raspado e já asséptico”. Diz que o homem nunca esteve tão frouxo e medroso como agora. O que está acontecendo?  Que conselhos lhes daria? Acha que se deveriam reposicionar?

Não podemos confundir o metrosexualismo com sensibilidade. Muita gente confunde. O metrossexual é mais uma questão de consumo, de moda, do fashion e dos novos cosméticos do que propriamente de delicadeza sentimental. Sempre aconselho aos mais jovens que adquiram os hábitos do macho-jurubeba que se devotam às raparigas e não perdem a ternura jamais. Jurubeba é uma pequena frutinha do Nordeste da qual é extraído um vinho amargo sempre ingerido pelos homens mais fortes, os destemidos, os vaqueiros e os vagabundos iluminados das cidades.

Já escreveu muito sobre a sua teoria da manga. Você pode explicar aos nossos leitores um pouco sobre esta lição básica do seu “catecismo de devoções, intimidades & pornografias”?

As raparigas andam reclamando da falta do sexo oral por parte dos homens, principalmente os mais jovens. Então escrevi uma crônica pedagógica mostrando que o hábito de chupar manga, uma fruta que deixa o rosto todo melado da sua carne amarelada, poderia estimular, desde miúdo, o gosto pelo sexo oral. Poderia afastar o nojo e o nojinho de tal prática. Eu sou um viciado neste tipo de sexo, um dependente.

Concorda que as pessoas hoje em dia vivem na tentativa de conciliar o inconciliável num relacionamento só, ou seja, querem um amor sem sobressaltos e tesão, confiança, estabilidade e novidade, frescura, emoção e segurança. Isso é possível? Não será dessa impossibilidade que vem tanta insatisfação?

Sim, estou de acordo. Espera-se demais desse belo encontro. Viver juntos é uma bela tragicomédia, não há perfeição, como as pessoas querem comprar. Devemos relaxar e aproveitar o que tem de bom e de ruim nos relacionamentos. Não há milagre. Nem fórmula perfeita. O segredo é viver intensamente, passionalmente, sabendo do risco do abismo.

Fala que não tem medo de sofrer por amor, de mostrar essa dor publicamente e que, para si, o amor é esse pacote completo. Mas é disso que a maioria das pessoas mais foge atualmente. Estamos ficando mal programados?

Estamos a ficar medrosos, mimados, crianças. Prefiro o método “dá-me vinho que a vida é nada”.

Já li em várias crônicas suas que “só o chifre humaniza o homem”. Fala isso por experiência própria? Era esse o conselho que daria às mulheres traídas?

Quase tudo que escrevo é vivido, é visceral, são dores próprias. Quem tem uma vida repleta de mulheres corre esse belo risco da traição. Somente depois de um chifre espetacular o homem torna-se mais humano, mais sensível, mais humilde. Perdemos a arrogância e um tanto do machismo dos trópicos. Só uma rapariga infiel ensina o bom caminho da vida ao seu homem.

Você fala que é libra com ascendente em libra e que por isso não consegue dizer que “não”? Até que ponto é que isso o tem prejudicado ou ajudado? É engraçado ter ouvido você falando isso, porque tinha a idéia que não ligava muito pra astrologia…

Tomo a astrologia como uma narrativa quase literária. Gosto de acompanhar essa escrita como quem lê uma novela. O Pessoa também é um pouco culpado por esse meu gosto.

Sei que é fã de futebol. Tem muita gente nas redes sociais protestando contra a realização da Copa do Mundo. Defendem que o dinheiro deveria estar sendo investido em outras áreas, que o custo de vida não pára de aumentar e que a violência se está agravando novamente. Qual a sua opinião?

Escrevo também sobre futebol e participo de debates na televisão sobre o tema. Há um descontentamento muito grande em relação aos gastos da Copa. Temos um futebol excelente mas uma administração corrupta nos clubes e na CBF. Nos protestos, as pessoas pedem “Padrão Fifa” também para a educação, a saúde, a segurança, nossos principais problemas. Melhoramos muito nos últimos governos, minha região, o Nordeste, passou por uma grande e ótima mudança, mas os problemas históricos são imensos e ainda nos perseguem. Uma vez que os gastos já foram feitos e o país firmou o compromisso pela Copa, sou a favor de que haja Copa e que os protestos não se calem. Amamos o futebol e o futebol não pode significar o ópio do povo. A imensa maioria quer a Copa. Então que tenhamos gols e protestos para melhorar o país.

Santiago Andrade, um operador de câmera, morreu em Fevereiro, enquanto fazia a cobertura dos protestos no Rio de Janeiro contra o aumento do preço dos transportes. Você acha que esse tipo de episódios se vai tornar mais frequente? Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em declarações à AFP (Agence France-Presse), pelo menos 117 jornalistas foram feridos no país desde a última Taça das Confederações, no ano passado. Por seu turno, de acordo com a organização Repórteres Sem Fronteiras, no relatório anual divulgado recentemente, o Brasil tornou-se o Estado com o maior número de jornalistas mortos nas Américas.

As pessoas que protestam são muito revoltadas com jornais, revistas e emissoras. Creem que a mídia distorce muito a realidade do país. Os repórteres acabam sofrendo na pele esse desgosto dos manifestantes, o que é um equívoco – são trabalhadores que estão ali a cumprir suas tarefas. Os jornalistas acabam sendo vítimas de violência dos dois lados: da polícia e dos jovens que protestam. Mas não creio que se tornem frequentes episódios como este. O rapaz que atirou o rojão mortal não tinha como alvo exclusivamente o operador de câmera, poderia ter matado qualquer um que estivesse na aglomeração.

Acha que Dilma Rousseff vai conseguir ser reeleita em Outubro? Como avalia até agora o desempenho da presidenta?

As pesquisas indicam que venceria sem problemas ainda no primeiro turno. Se a economia não sofrer um terremoto daqui para lá se reelege fácil mesmo. O país está repleto de problemas, como falei acima. Os índices de desemprego, todavia, são baixíssimos e não se pode negar a ascensão social de milhões de pessoas.

Voltando ao futebol, quem é melhor Cristiano Ronaldo ou Messi? E Neymar? Chegará alguma vez ao nível desses dois?

Gosto mais do estilo explosivo do Cristiano Ronaldo, embora o considere muito metrossexual para o meu gosto [risos]. O Messi é craque, gênio também, mas aquela frieza dele não bate com a minha passionalidade de cronista dos trópicos. O Neymar será melhor que os dois, a começar pela Copa do Mundo. Escrevi muitas crônicas sobre o menino, era meu leitor, uma honra.

Confira aqui a lista dos livros de Xico:
Big Jato - Editora Companhia das Letras
Chabadabadá - Editora Record4
Modos de macho & Modinhas de Fêmea - Editora Record
Divina Comédia da Fama - Editora Objetiva
Nova Geografia da Fome - Editora Tempo d'Imagem
Paixão Roxa - Editora Pirata
Catecismo de Devoções, Intimidades & Pornografias - Editora do Bispo
Se um Cão Vadio aos Pés de uma Mulher-abismo - Editora Fina Flor
Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente - Editora do Bispo
La Mujer És un Gluebo da Muerte - Editora Yiyi Jambo, Paraguay
Tripa de Cadela & Outras Fábulas Bêbadas (contos) - Editora Dulcinéia Catadora

Livros onde participou como co-escritor
Essa História Está Diferente - Editora Companhia das Letras
Boa Companhia (Crônicas) - Editora Companhia das Letras
Cem Menores Contos do Século - Ateliê Editorial
Dentro de um Livro - Editora Casa da Palavra
Blônicas, Crônicas de Blog - Editora Jabuticaba
As melhores crônicas do século - Editora Objetiva
Antologia bêbada - Edição Ciência do Acidente/Mercearia São Pedro
"Carta para você - Editora Alfaguara
"Desacordo Ortográfico - Não Editora
Tempo Bom (contos) - Editora Iluminuras

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